Klessinha e a exclusão política: quando a arte vira moeda de disputa e perde seu verdadeiro valor



A exclusão da cantora Klessinha, um dos nomes mais respeitados e talentosos do arrocha na atualidade, da programação oficial do São João de sua própria cidade, Areia Branca, revela uma triste face da política cultural local: a instrumentalização da arte e dos artistas para interesses políticos e pessoais. Em meio a um evento que celebra as raízes, a cultura popular e a identidade regional, vemos um artista da terra ser deixado de fora, enquanto outros nomes do mesmo segmento, mas não locais, são convidados.

A fala de Klessinha é reveladora e emblemática. Ela denuncia a existência de “fantasmas” e barreiras criadas não pelo seu talento ou relevância, mas por questões alheias à sua trajetória artística — uma espécie de perseguição motivada por alianças políticas, que acaba impactando diretamente na carreira e na representatividade cultural local.

Ao afirmar que “tem um fantasma que me segue desde o tempo de Acácia” e que “infernizavam Alain para ele não me contratar”, Klessinha expõe como seu nome foi envolvido em disputas políticas. A lógica de que a artista “não pode” se apresentar para certos mandatários por ter cantado para outros soa não apenas absurda, mas uma clara demonstração de como o campo cultural é contaminado pela visão partidária e divisória que deveria estar longe da arte.

O que se espera de um evento cultural, sobretudo numa festa tradicional como o São João, é justamente o contrário: a valorização dos artistas locais, que carregam a identidade do povo e da cidade para além dos palcos. A cultura popular é, por essência, um espaço de pertencimento e união , não de exclusão e vingança.


Klessinha reafirma com firmeza que não nega sua origem: “sempre falo que sou de Areia Branca”. Isso torna ainda mais incompreensível sua exclusão. Não se trata apenas de um show, mas de um símbolo para a comunidade: um artista que leva o nome da cidade para o Brasil inteiro, que aparece na TV, divulga o nome do município, promove a cultura local , e que, no entanto, é preterido.

Esse tipo de postura demonstra como, muitas vezes, os gestores públicos e grupos políticos preferem privilegiar interesses pessoais e alianças a investir naquilo que verdadeiramente fortalece a cultura e a autoestima da população. O artista da terra, que deveria ser motivo de orgulho e incentivo, vira peça descartável num jogo de poder e influência.


A exclusão de Klessinha não é apenas um problema pessoal para a cantora, é uma perda para o público e para a cultura de Areia Branca. Quando um artista local é silenciado ou impedido de se apresentar, toda a comunidade sofre. Perdemos a oportunidade de ver o talento crescer, de fomentar o emprego e a economia criativa local, de fortalecer uma identidade cultural autêntica.

Além disso, essa prática desestimula outros artistas da região, que percebem que a carreira pode ser prejudicada não por falta de talento, mas por posicionamentos e jogos políticos. Essa mercantilização da cultura é um retrocesso, que enfraquece a arte e empobrece o patrimônio imaterial do povo.


A fala de Klessinha toca um ponto crucial: a arte e o artista são independentes da política partidária. Não é papel do gestor público ou de qualquer grupo político usar o palco e a programação cultural como forma de recompensa ou castigo. A cultura deve ser plural, democrática, inclusiva e, acima de tudo, respeitosa com seus protagonistas.

Quando a política invade esses espaços para exercer controle e vingança, ela desvirtua a função social da arte, que é unir, refletir, transformar e celebrar. A instrumentalização da cultura para interesses particulares destrói essa essência e frustra o público, que espera do São João algo que vá além da mera manipulação.

O caso de Klessinha em Areia Branca é um espelho do que acontece em muitas cidades brasileiras: talentos locais sendo invisibilizados por causa de disputas políticas mesquinhas. É urgente que a sociedade civil, o público, as organizações culturais e até os próprios artistas pressionem por uma política cultural ética, que coloque a arte em primeiro lugar, independente de “lado A” ou “lado B”.

Klessinha merece estar no São João da sua cidade não por ser aliada de ninguém, mas por ser um dos grandes nomes do arrocha, por representar Areia Branca com talento e dignidade e por carregar em sua voz a cultura de um povo que merece ser ouvido, respeitado e celebrado.

Trago Fatos , Marília Ms. 

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