“A It Girl do momento é feia?” O culto ao feio como nova estética da exclusão




A nova It Girl é feia. Não tem mais o brilho da pele bem cuidada, o cabelo milimetricamente alinhado, a sobrancelha laminada, o look equilibrado. Agora, ela tem olheiras fundas, cabelo oleoso, cara de quem dormiu duas horas e passou o dia inteiro na fila do consulado. Ela parece deslocada, estranha, desconfortável. Mas, curiosamente, é exatamente isso que a torna cool. Em uma virada de narrativa estética, o desleixo virou tendência. A confusão virou estilo. E o feio virou o novo bonito , ou, pelo menos, o novo desejável.

Mas o que isso diz sobre o nosso tempo?

Feio como provocação: a revolução estética de Miúccia e Balenciaga

Essa transgressão estética não é nova. Nos anos 90, Miúccia Prada já havia cravado: “feio é mais forte que bonito”. Ela desafiou o padrão tradicional de beleza, misturando o estranho, o desajeitado, o “errado” , e transformando isso em desejo. Sandália com meia, estampa cafona com alfaiataria nobre. Prada entendeu antes de todo mundo que a moda, quando quer ser revolucionária, precisa desorganizar o olhar. E, com isso, ela lançou uma nova forma de sofisticação: aquela que não é confortável de imediato, mas que provoca, desafia, inquieta.

A Balenciaga, nos últimos anos, levou isso ao extremo: tênis destruídos que custam mais de cinco mil reais, bolsas que parecem sacos de lixo, blazers gigantes e formas que distorcem o corpo. A ideia de beleza clássica é jogada pela janela. Em seu lugar, entra o grotesco com verniz de luxo. Porque no fundo, o que Balenciaga está dizendo não é “feio é bonito”, mas sim: feio também pode custar caro. E é aí que mora a chave crítica.

Ugly Fashion: liberdade ou disfarce de exclusão?

A consagração do ugly fashion veio mesmo em 2022, com a Miu Miu. Micro saias desfiadas, suéteres com barras irregulares, meias que parecem esquecidas no varal. Era como se a modelo tivesse saído correndo de casa, pegado as roupas erradas, e desfilado. Mas ali, naquela imperfeição calculada, estava o novo luxo. A estética do erro virou a estética do acerto. Só que há um detalhe que não dá pra ignorar: todas as modelos ainda eram magras, brancas, minimalistas, com rostos simétricos. O feio era apenas o figurino. O corpo continuava sendo aquele padrão intocável.

E aqui surge a pergunta central: o ugly fashion é mesmo subversivo ou só mais um disfarce de elitismo? Porque a diferença entre desleixo e conceito parece estar no CEP e no sobrenome. No metrô, a moça com olheira e roupa desconjuntada é vista como alguém que “não se cuida”. Na passarela da Semana de Moda de Paris, com as mesmas olheiras e o mesmo look, ela é a nova vanguarda. A roupa desalinhada, quando é usada por alguém com grife no sobrenome, vira arte. Mas quando é usada por alguém da periferia, vira descaso.

A estética do desconforto como performance

Essa “feiúra fashion” também não vem de qualquer lugar. Ela nasce num momento em que estamos todos cansados da perfeição polida do quite luxury , aquele visual todo bege, limpo, minimalista, que transborda dinheiro sem mostrar etiqueta. O mundo está sujo, desigual, imprevisível. As guerras voltaram às capas dos jornais. A desigualdade aumentou. A ansiedade coletiva virou o novo normal. E nesse cenário, a moda também responde. A estética do estranho, do torto, do mal-ajeitado, parece fazer mais sentido. Mas cuidado: parece.

Porque o feio virou uma performance. E como toda performance, ela pode ser tão falsa quanto um filtro do Instagram. Quando a indústria adota o “estranho” como tendência, ela cria a ilusão de inclusão — mas continua vendendo para os mesmos corpos e bolsos de sempre. A rebeldia é estética, mas o sistema continua conservador. É o capitalismo sendo o que sempre foi: camaleônico, pronto para transformar até o antissistema em produto.

No final das contas… estamos mesmo livres?

A pergunta final que fica é: será que estamos mesmo nos libertando dos padrões? Ou só trocamos a pressão do “bonito e arrumado” pela obrigação de sermos “feios e conceituais”?

Talvez a It Girl do momento pareça feia, mas ela ainda é magra, bem relacionada e , vamos ser honestos ,caríssima. Sua feiura é um luxo estudado. Uma rebeldia domesticada. E isso não é liberdade. É só mais um figurino.

Então, antes de você correr pro brechó mais próximo em busca da jaqueta rasgada ideal ou do moletom manchado que vai te fazer parecer saído direto da Vogue Itália, vale se perguntar: você quer ser feio porque se sente livre ou porque está tentando se encaixar em mais uma estética que promete, mais uma vez, que você será aceito se seguir o script?

Porque a verdadeira subversão ainda não é a estética. É a escolha. É olhar pro espelho e se vestir por prazer, e não por performance.

Seja bonito, feio, confuso ou fora de moda , desde que seja você..


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