Forró, Fé e Estado Laico: Quando o Arraiá do Povo e o Forró Caju Esquecem Que São João É Cultura Nordestina, Não Culto Religioso
De uns tempos pra cá, quem observa o cenário cultural de Sergipe percebe que os rumos dos nossos festejos juninos estão, no mínimo, desconectados das raízes que sustentam a própria essência do São João. A mais nova polêmica não poderia passar despercebida: agora, tanto o Arraiá do Povo quanto o Forró Caju incluirão em suas programações atrações gospel, como Naldo José, Cícero Oliveira, Cassiane e Tony Allysson.
E é aqui que mora a crítica , necessária, urgente e, sobretudo, constitucional. Afinal, desde quando São João virou culto evangélico? Desde quando o palco do forró, das quadrilhas, do xote, do baião, do arrasta-pé e da sanfona passou a ser compartilhado com louvores e pregações disfarçadas de show?
Sim, é verdade que o São João tem, sim, sua origem na tradição católica, ligada aos festejos de São João Batista , isso é histórico, é inegável. Mas, com o tempo, o São João se transformou em muito mais do que uma festa religiosa: ele se tornou um símbolo da identidade cultural nordestina. É a celebração do nosso povo, das nossas tradições, da nossa culinária, da nossa música e, principalmente, do forró, que é patrimônio imaterial do Brasil.
Então, se nem mais os símbolos católicos se impõem na centralidade da festa , como as missas, procissões ou novenas, que são realizadas à parte, em espaços próprios e apropriados , como, então, justificar a inserção de shows evangélicos, em pleno palco público, pago com dinheiro público, durante uma festa popular que tem função cultural e não religiosa?
Vamos deixar claro: o Brasil é um Estado laico. Isso não é uma questão de opinião, é um princípio constitucional, garantido no artigo 19, inciso I, da Constituição Federal, que diz que é vedado ao Estado “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”
Portanto, quando o Governo de Sergipe e a Prefeitura de Aracaju decidem incluir shows de artistas gospel , cuja proposta é única e exclusivamente religiosa, direcionada a um grupo específico da sociedade , eles rompem com o princípio da laicidade do Estado. E mais: ignoram o fato de que a população não é composta apenas por cristãos evangélicos. Onde estão, então, as apresentações de matriz africana, indígena, espírita, islâmica, judaica ou até mesmo ateísta, se é pra atender todos os públicos?
E não, não adianta usar o argumento de “ah, é pra ser inclusivo”. Inclusivo com quem? Porque, convenhamos, não são os evangélicos que estão marginalizados na sociedade. Pelo contrário, é um dos grupos que mais cresce em termos de poder político, econômico e midiático no Brasil.
Inclusivo seria se o governo abrisse espaço nos palcos para os mestres da cultura popular, para os grupos de reisado, para os cocos de roda, para as rodas de capoeira, para os maracatus, para os folguedos, para os emboladores de coco, para as quadrilhas juninas tradicionais. Isso, sim, seria fortalecer a cultura e representar a diversidade.
Mas não. O que vemos é, mais uma vez, a imposição silenciosa de um projeto de poder, que disfarça de “pluralidade” o avanço de uma agenda religiosa dentro de espaços que deveriam ser, antes de tudo, laicos e culturais.
E é preciso dizer: não tem cabimento gospel no São João. Assim como não teria cabimento colocar um trio de forró pra cantar dentro de um culto, numa igreja, numa celebração de páscoa evangélica. Assim como não faz sentido colocar um show de forró dentro do Yom Kippur ou de uma cerimônia de Candomblé. Cada coisa no seu lugar.
Porque, acima de qualquer crença, o São João é do povo nordestino. É da roça, da sanfona, do milho, do licor, do forró pé de serra, do forró estilizado, do baião, do xote, do arrasta-pé. É da nossa história de resistência, de identidade, de orgulho de ser nordestino.
Não é culto. Não é cruzada evangelística. Não é pregação. É celebração da cultura popular.
E se querem de fato democratizar os palcos públicos, que façam então um evento específico para o gospel, como já existe para outros gêneros, e que seja fora dos espaços destinados à celebração da cultura junina. Porque, no São João, quem tem que ser exaltado é Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho, Flávio José, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro e tantos outros que construíram essa tradição.
Que a gente nunca esqueça: defender o São João como espaço de cultura popular não é intolerância religiosa. Intolerância é usar dinheiro público, de um estado laico, pra privilegiar um grupo religioso específico, enquanto marginaliza outras expressões culturais.
São João é forró. É cultura. É Nordeste. É o povo na rua celebrando quem somos. E isso precisa ser respeitado.
Trago fatos , Marília Ms .


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