Wakanda não é para nós: a urgência de símbolos negros brasileiros autênticos

 


Recentemente, as declarações do humorista e escritor Paulo Vieira no programa Mano a Mano repercutiram intensamente nas redes sociais. Ele afirmou não gostar de Wakanda, o reino fictício do universo Pantera Negra, e questionou sua função como símbolo para as pessoas negras no Brasil. Essa opinião, que pode parecer à primeira vista polêmica ou até mesmo desconectada do movimento afrofuturista global, na verdade toca em um ponto crucial para a discussão sobre identidade, representatividade e a construção cultural da negritude no país.

Paulo Vieira tem razão ao afirmar que Wakanda é uma criação do imaginário estadunidense , um produto cultural que, apesar da sua importância para a diáspora negra mundial, não reflete as complexidades e especificidades da experiência negra brasileira. O universo da Marvel, embora revolucionário ao trazer um reino africano tecnológicamente avançado para as telas, é concebido dentro do contexto sociocultural e religioso dos Estados Unidos, que, em grande parte, está marcado pela religiosidade evangélica e outras matrizes culturais específicas.

No Brasil, onde vive a maior população negra fora da África e onde as religiões de matriz africana , Candomblé, Umbanda e outras , desempenham papel fundamental na construção da identidade e resistência cultural, a construção simbólica do futuro e da ancestralidade precisa ser diferente. É necessário que símbolos e narrativas afrofuturistas se construam a partir do nosso contexto, das nossas histórias e das nossas tradições. Não podemos importar uma Wakanda como modelo único e definitivo, pois isso apaga a diversidade, a complexidade e a riqueza da negritude brasileira.

Como autor de ficção científica afrofuturista, entendo que a arte tem um papel poderoso na formação da identidade coletiva. No entanto, é preciso cuidado para não reduzir nossa cultura a um padrão importado, que pode acabar invisibilizando as particularidades do nosso povo. O afrofuturismo brasileiro deve refletir a ancestralidade yorubá, as tradições dos povos que resistiram à escravidão, às perseguições religiosas, e que continuam a construir um legado de força e beleza autênticos.

O debate levantado por Paulo Vieira também expõe um problema maior: a dificuldade de nossos símbolos culturais negros ganharem espaço legítimo dentro de um país que historicamente prefere narrativas importadas e estereotipadas. Enquanto isso, projetos artísticos e culturais genuinamente brasileiros muitas vezes ficam à margem do mainstream.

Não se trata de desprezar Pantera Negra ou Wakanda , eu mesmo acompanho e valorizo esse universo. Mas é fundamental entender que esses símbolos não podem substituir a necessidade de construção cultural própria, que dialogue diretamente com nossa realidade e que dê visibilidade às nossas histórias, religiões e modos de ser. Sem isso, corremos o risco de perpetuar a dependência cultural e reforçar a ideia equivocada de que tudo que é valorizado para a população negra precisa vir de fora.

Além disso, é preciso lembrar que se existisse uma Wakanda, como concebida na ficção, é pouco provável que o Brasil , ou mesmo boa parte do continente africano , fosse incluída ou reconhecida dentro desse universo de poder e tecnologia. Essa reflexão, ainda que dolorosa, serve para reforçar a urgência da nossa autonomia cultural e do fortalecimento dos nossos próprios símbolos.

A negritude brasileira merece mais do que uma imagem importada para se reconhecer e se inspirar. Merece que seus autores, artistas e pensadores criem e difundam narrativas que nasçam da nossa realidade, que dialoguem com nossas dores e alegrias, e que inspirem as futuras gerações a se verem no futuro com orgulho e pertencimento.

Portanto, o que o Paulo Vieira está dizendo não é um simples desagrado com um produto cultural internacional, mas sim uma chamada para que nos apropriemos das nossas histórias, criemos nossos próprios mitos, e construamos uma cultura negra brasileira com símbolos que falem diretamente conosco.

Trago Fatos , Marília Ms.

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