Você acreditaria se eu dissesse que a palavra “tchau” significa escravo?
Pois é. Parece improvável, mas é verdade. E não se trata apenas de uma curiosidade linguística , é uma dessas revelações que abrem buracos no chão da história e nos obrigam a questionar o que aceitamos como cotidiano. Porque se até uma despedida inofensiva carrega em si a marca de séculos de servidão, o que mais estamos repetindo sem perceber?
Então tá, eu vou explicar.
A palavra “tchau” chegou ao Brasil por influência italiana, com os fluxos migratórios do século XIX e início do século XX. Assim como a polenta, a cantina, os sobrenomes terminados em “ini”, chegou também o ciao ,que por lá é usado tanto para dizer “oi” quanto “adeus”. Aqui no Brasil, a versão aportuguesada pegou: virou tchau, mas ficou associada apenas à despedida. E ninguém mais pensou nisso. Só que a palavra tem uma origem surpreendentemente sombria.
Do latim à escravidão: um vocabulário com cicatrizes
A raiz de ciao (e, portanto, de tchau) está no latim medieval slavus , termo que deu origem à palavra slave em inglês e escravo em português. Sim, a mesma que define um sistema brutal de desumanização. Esse slavus era usado inicialmente para se referir aos povos eslavos, da região leste da Europa, que foram amplamente escravizados entre os séculos IX e XV. Tantas vezes submetidos, que o nome do povo se fundiu com o próprio conceito de escravidão no Ocidente.
No dialeto veneziano, slavus virou s’ciavo ou schiavo , que também significa escravo. E em Veneza, era comum as pessoas se cumprimentarem dizendo “sono il suo schiavo”, ou seja, “sou seu escravo”. Isso não era uma confissão de servidão literal, mas uma forma de respeito e cortesia. Algo como “à sua disposição”, embora envolto em uma simbologia de submissão.
Com o tempo, essa expressão foi se abreviando. Primeiro virou apenas sciavo, depois ciao, até chegar no nosso singelo tchau.
A cortesia que nasceu da servidão
O que isso revela sobre nós? Muito. Porque por mais que hoje tchau não signifique sou seu escravo, ele já significou. E essa história nos mostra como os gestos de polidez podem estar profundamente entranhados em estruturas de poder.
Dizer “sou seu escravo” como forma de saudação revela um tempo em que o status do outro exigia nossa submissão, mesmo simbólica. Isso ainda ressoa nas formas como nos tratamos hoje. Não falamos mais “sou seu escravo”, mas dizemos “às ordens”, “como desejar”, “o que o senhor mandar”. A linguagem muda, mas o jogo de forças se repete.
E o presente? Ainda dizemos tchau com correntes invisíveis?
Hoje você dá tchau e segue a vida. Mas talvez isso nos diga algo sobre como herdamos palavras sem entender o que elas carregam. Não se trata de parar de usá-las, mas de começar a percebê-las. A linguagem é viva, sim, mas é também uma cápsula do tempo. Uma arqueologia do nosso comportamento social.
Se tchau nasceu de uma fórmula de submissão, quantas outras expressões usamos que naturalizam relações de hierarquia? Quantas vezes somos escravizados por protocolos sociais que nos obrigam a sorrir, a agradar, a se calar? Quantas vezes dizemos tchau sem querer ir, ou ficamos quando deveríamos partir?
Então... e agora?
Agora você sabe. E talvez não consiga mais ouvir um tchau sem se lembrar que ele já foi um “sou seu escravo”. Talvez você perceba que a linguagem é um espelho, mas também um chicote , revela o que fomos, mas também nos mantém em certos moldes.
Não se trata de cancelar palavras, mas de reconhecer seus significados esquecidos, questionar suas origens e escolher conscientemente como falamos, como nos relacionamos e como nos despedimos.
Porque toda vez que a gente diz tchau, também está dizendo algo do passado.
E talvez, a partir de agora, a gente passe a dizer com mais consciência.
Tchau. Ou melhor: livre-se bem.
Trago Fatos , Marília Ms .
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