Sônia e o silêncio imposto: o caso revoltante da mulher negra, surda e muda mantida em condições análogas à escravidão por um desembargador
No Brasil de 2025, onde a escravidão já deveria ser apenas um capítulo vergonhoso da nossa história, ainda se escreve , em silêncio e com tinta de sofrimento , a vida de Sônia, uma mulher negra, surda e muda, de 49 anos, que há décadas vive à margem do que chamamos de dignidade. Sônia não sabe ler, não sabe escrever, não domina Libras. Mas sabe reconhecer gestos como “varrer a casa”, “lavar a louça” e “fazer massagem”. São esses os comandos que guiam sua existência. E são esses os únicos sinais que aprendeu , não por escolha, mas por condicionamento.
O algoz? Um homem que deveria representar os pilares da Justiça: um desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, pós-graduado em Direito do Trabalho e presidente da Primeira Câmara de Direito Público. Um homem que usou sua influência, seu cargo, seu poder e sua voz para calar a vida de uma mulher que já nasceu silenciada.
O caso começou a vir à tona após uma denúncia anônima, possivelmente de ex-funcionários da casa do magistrado, revelando que Sônia vivia num quartinho isolado, sem qualquer convivência com a família, e prestando serviços domésticos desde a infância. Era chamada de filha, mas nunca foi tratada como tal. O afeto, que deveria ser construído com amor, foi moldado com comando e servidão.
A história de Sônia se conecta à da família Borba ainda na infância. Aos 8 anos, ela conheceu Leonor Gaiotto, psicóloga de uma creche. Leonor era mãe de Ana Cristina Gaiotto de Borba, que viria a se casar com o desembargador. Segundo o próprio, Sônia passou a viver com o casal quando tinham acabado de ter o primeiro filho, porque “gostavam muito de crianças”. Sônia tinha entre 12 e 13 anos quando foi entregue à família, sob a promessa de um futuro melhor. A mãe, já falecida, acreditava estar protegendo a filha. Hoje, os irmãos lutam para tê-la de volta. E sequer podem vê-la. Estão proibidos de contato por decisão judicial.
Essa é a essência do caso: não estamos falando de uma família pobre, ignorante ou desinformada. Estamos falando de juristas. De autoridades. De pessoas com acesso à educação, à cultura e à moral constitucional. E mesmo assim, escolheram manter uma mulher invisível, silenciosa e dependente , como uma posse. Sônia nunca foi alfabetizada. Nunca teve acesso à linguagem de sinais. Está com a saúde bucal comprometida, vive sob controle absoluto, e só agora, depois de quase 50 anos, o país começa a escutar o eco do seu grito mudo.
A defesa da família é um espetáculo à parte da hipocrisia jurídica. Alegam paternidade socioafetiva doméstica, como se o afeto pudesse justificar a ausência de escolaridade, o não acesso à saúde, a submissão total, e o isolamento social. E o pior: o recurso foi aceito, e Sônia voltou para os braços dos mesmos que a mantinham presa, enquanto os irmãos, sua única referência biológica viva, continuam impedidos de vê-la.
Esse caso é mais do que uma denúncia. É um espelho cruel de um país racista, elitista e classista. Um país onde o racismo estrutural não está apenas nas ruas ou nos presídios , está nos tribunais, nas sentenças, nas famílias brancas que se dizem bem-intencionadas. Um país onde ainda se considera razoável uma mulher negra trabalhar a vida inteira como doméstica, sem salário, sem escola, sem liberdade, sob a desculpa de “filha do coração”.
Sônia foi escravizada em silêncio. E o silêncio foi sua prisão mais cruel.
Agora, cabe a nós romper esse silêncio.
O Ministério Público precisa agir com firmeza. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) precisa investigar a conduta ética e funcional do desembargador. O STF precisa ser pressionado. A sociedade precisa amplificar a voz de Sônia, mesmo que ela não fale. Porque cada um de nós, ao não reagir, ao se calar, ao relativizar, se torna cúmplice de sua dor.
Essa não é uma notícia podre.
É uma ferida exposta. E uma urgência de reparação.
Justiça para Sônia.
Agora. Antes que o silêncio a consuma de vez.
Trago Fatos , Marília Ms .
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