“Se vão os dedos e fica a aliança”: a metáfora cruel e honesta das amizades que doem mais do que ensinam
Existe uma frase que minha avó disse com uma sabedoria ferida pela vida: “Se vão os dedos e fica a aliança.” É daquelas expressões que, de tão simples, carregam um mundo inteiro dentro. Serve para relações que mutilam, que arrancam pedaços e deixam em troca um símbolo , uma memória, uma promessa, uma ilusão, de que aquilo um dia valeu a pena.
E hoje eu uso essa frase para refletir sobre amizades. Não aquelas que caminham com a gente sob o sol e dividem a água no meio do deserto. Mas as outras. As que chegam sorrindo, prometem eternidade, ganham acesso às nossas partes mais frágeis ,e saem levando tudo. Levaram tempo, levaram energia, levaram confiança. E deixaram o quê? Às vezes, só o nome gravado em fotos antigas. Às vezes, só um vazio disfarçado de saudade. Às vezes, a maldita aliança: o símbolo de uma entrega que virou cicatriz.
Amizade, quando é verdadeira, é refúgio. Mas quando é disfarce, é armadilha.
Reflita. Quem são os amigos que te deixaram com menos do que você era antes de conhecê-los? Quem se sentou à sua mesa, comeu do seu pão, dormiu sob seu teto , mas torceu contra você no silêncio do próprio ego? Quem te elogiava na frente e te diminuía pelas costas?
Essas amizades são como os dedos perdidos: você sente falta, porque usava para tocar, para segurar, para se apoiar. Mas depois que se vão, tudo o que fica é a sensação de que você foi tolo demais por confiar, bom demais por perdoar, cego demais por insistir. E é aí que mora o perigo: começamos a nos culpar pelas amputações que a vida nos impôs com mãos alheias.
E é claro: nem toda amizade que termina foi tóxica. Às vezes, as pessoas simplesmente mudam, seguem caminhos diferentes, aprendem a amar de outros jeitos. Mas há aquelas que saem da sua vida levando muito mais do que trouxeram. E o que sobra é essa maldita aliança invisível ,esse elo quebrado, esse laço podre que insiste em apertar o dedo da memória.
É preciso saber o que levaram e o que deixaram.
Levaram tua paz? Te deixaram com ansiedade?
Levaram tua autoestima? Te deixaram com dúvidas sobre teu valor?
Levaram tua lealdade? Te deixaram com medo de confiar de novo?
Levaram tua verdade? Te deixaram apenas com silêncios doloridos?
Então não, não foi amizade. Foi abuso disfarçado de companhia.
Mas ainda assim, existe um lado cruelmente bonito nessa metáfora da minha mãe. Porque mesmo quando se vão os dedos, mesmo quando a aliança aperta, ela também nos lembra o quanto já fomos capazes de amar, de confiar, de se doar. E isso não é fraqueza. Isso é potência.
A vida vai arrancar algumas amizades de nós como quem arranca dentes podres. Vai ser doloroso, vai sangrar, vai deixar espaço vazio. Mas também vai permitir que novos afetos nasçam. Porque amizade de verdade não arranca dedos , ela estende mãos.
E se for pra deixar alguma coisa, que deixem flores no caminho, lembranças boas, conselhos que salvam, memórias que abraçam. Não alianças apertadas que nos lembram apenas do que perdemos.
Então, da próxima vez que você pensar em alguém que partiu da sua vida, se pergunte: o que ele levou de mim? E o que deixou?
E se a resposta doer, lembre-se: você ainda tem a alma inteira.
E amizades novas virão , para te curar, não para te mutilar.
Porque ninguém merece perder os dedos e ficar só com a aliança.
Trago Fatos, Marília Ms.


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