Religião é cultura: e sua fé não é universal, é geográfica



Muita gente se incomodou quando eu disse que religião é cultura. Mas se a frase incomoda, talvez seja porque toca numa ferida escondida por séculos de doutrinação: a ilusão de que a fé que você professa é a única verdadeira , e que tudo o que difere dela é ignorância, desvio ou heresia.

Mas eu te faço uma pergunta simples, quase infantil: se a sua fé fosse universal, por que ela precisa de missionários? Por que precisa de pastores em canais de TV, de templos em cada esquina, de dinheiro, propaganda, folheto, campanha de conversão, dublagem em vários idiomas e distribuição internacional?

Se fosse universal mesmo , ou seja, se fosse algo que nasce naturalmente no coração humano, independentemente do tempo, do espaço ou da cultura , ela não precisaria ser ensinada. Estaria em todo lugar, surgiria espontaneamente. Mas não é o que acontece.

Você não nasceu acreditando em Jesus. Assim como uma criança nascida no Nepal não nasce acreditando em Buda, nem uma criança nascida no Marrocos nasce acreditando em Oxalá. Você nasceu em um lugar onde Jesus é dominante. O cristianismo não chegou até você por epifania divina. Chegou por colonização, por imposição, por tradição, por hábito. Veio pela boca dos pais, pelas orações na escola, pelas datas comemorativas, pelo hino nacional que menciona "Deus", pela cruz nas repartições públicas. Veio com o peso da maioria , e, muitas vezes, com a censura da dúvida.

Religião é herança, e como toda herança, ela carrega os valores, os medos e as limitações de quem a deixou. A fé que você defende como “verdade absoluta” é, antes de tudo, um código cultural, uma linguagem simbólica, um reflexo do lugar onde você cresceu. Achar que ela é universal é o mesmo que acreditar que seu idioma é o único que faz sentido , e que os outros são apenas tentativas falhas de se comunicar.

Isso não é desrespeito. É honestidade.

Dizer que religião é cultura não invalida sua experiência espiritual. Mas obriga você a olhar para ela com mais consciência e menos arrogância. Te convida a reconhecer que existem outras formas legítimas de ver o mundo, de lidar com o sagrado, de entender o mistério da existência. E que talvez, só talvez, o seu Deus seja apenas um dos muitos nomes que a humanidade deu ao que não consegue explicar.

Mas admitir isso é desconfortável, eu sei. Porque a fé tem sido usada como escudo de identidade. Porque muita gente confunde espiritualidade com tribalismo religioso. Porque ensinar que o seu Deus é o único verdadeiro dá segurança , e ao mesmo tempo, superioridade.

Só que essa superioridade vem à custa da diversidade. Vem à custa da escuta. Vem à custa da paz.

Religião não é neutra. Ela tem geografia, tem história, tem política. Ela foi usada para justificar guerras, colonizações, massacres. Foi usada para subjugar povos inteiros. E ainda hoje, é usada para legislar sobre corpos, para excluir minorias, para silenciar quem pensa diferente.

A pergunta que fica é: se o seu Deus precisa que você imponha o nome dele aos outros, será que ele é Deus ou um projeto de poder?

Religião pode ser beleza, consolo, transcendência. Mas também pode ser prisão, dogma, opressão. E só quem entende que a fé é atravessada pela cultura consegue separar o que é divino do que é conveniência humana.

Então, antes de defender sua fé como verdade universal, pergunte-se: ela veio do céu ou do seu CEP? Você acredita no que acredita porque sentiu... ou porque foi ensinado a não sentir mais nada além daquilo?

Fé pensada é fé adulta. E só quem tem coragem de questionar a própria crença é capaz de vivê-la com maturidade. Os outros, infelizmente, só repetem. E repetição, por si só, nunca salvou ninguém.

Trago Fatos , Marília Ms.

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