Rap de Palco, Público de Camarote: Veigh, o Hip Hop e a Ilusão da Representatividade
Veigh, um dos nomes mais influentes do hip hop nacional contemporâneo, recentemente usou seus stories para rebater as críticas que recebeu após participar de um show com arrecadação solidária em prol de mulheres trans. "0% hip-hop vocês que estão criticando a ação que nós fez pra fortalecer a comunidade trans, falou?", escreveu, demonstrando indignação com a reação negativa de parte de seu próprio público. A ação em si, é importante ressaltar, não é o problema. Apoiar a causa trans é urgente, necessário e digno de reconhecimento , especialmente em um país onde a violência contra pessoas transgênero é uma das mais altas do mundo. O problema real está na lacuna entre o discurso que Veigh profere e o espaço social e econômico que ele hoje ocupa.
Veigh se pergunta de onde vêm as críticas. A pergunta mais pertinente, no entanto, é: de onde ele fala? A que lugar social ele pertence hoje? Para quem ele canta?
Quando um artista afirma que luta pelas minorias, mas seus shows são ocupados majoritariamente por pessoas brancas, de classe média alta, vestindo roupas de grife, segurando copos de drinks caros e filmando tudo com iPhones, há uma contradição gritante que precisa ser debatida. A plateia que vibra ao som do “fogo nos racistas” é, muitas vezes, a mesma que reproduz o racismo estrutural em seus círculos sociais e políticos. Esse paradoxo desconfortável denuncia um ponto que muitos artistas se recusam a encarar: o rap foi apropriado pela elite como produto de consumo, não como consciência de classe.
Não se trata de julgar Veigh por ter feito sucesso, por ter vencido , isso, inclusive, deve ser celebrado. O que está em questão é o quanto ele compreende o sistema que impulsiona esse sucesso. As gravadoras que o promovem, as marcas que o patrocinam, os festivais que o convidam, não compartilham das mesmas pautas que o hip hop nasceu para defender. Essas instituições são parte do mesmo sistema que oprime as minorias, que lucra com a desigualdade, que capitaliza a estética preta enquanto esvazia seu conteúdo político.
O incômodo do público conservador que o segue e que se manifestou contra sua ação pró-LGBTQIA+ não deveria ser uma surpresa. O que espanta é o espanto do próprio Veigh, que parece não reconhecer o tipo de público que o consome. Quando um ingresso custa R$300, quem está no show? Quem é excluído da experiência ao vivo e precisa consumir fragmentos disso pelas redes sociais? Onde está a periferia nesse cenário?
Essa alienação de classe se torna mais grave quando o artista fala de minorias como se estivesse entre elas, quando já não está. Veigh , como tantos outros do mainstream , não é mais o garoto da quebrada rimando para os seus. Hoje, ele canta sobre resistência em palcos distantes da realidade de onde veio. A periferia assiste, de fora, enquanto os filhos da elite se apropriam da trilha sonora da revolta como se fosse playlist de academia.
Não é que Veigh tenha deixado de ser legítimo. Mas ele parece ter deixado de ser consciente. E, no hip hop, a consciência é arma fundamental. É ela que transforma o microfone em instrumento de denúncia, e não apenas em acessório de performance.
A fala de Veigh aos críticos revela uma incompreensão profunda do lugar que ocupa: “Vocês merecem esses artistas medíocres de vocês aí, mano.” Mas a mediocridade não está nos outros , está em ignorar a própria desconexão. Ao se ofender com a crítica, ele escancara o quanto está blindado dentro da bolha criada pela fama. Uma bolha onde a estética da periferia é vendida como produto de luxo, enquanto o conteúdo político é amaciado para não incomodar quem tem dinheiro para consumir.
Veigh diz que o rap sempre lutou pelas minorias. E lutou. Mas a luta verdadeira exige coerência, exige entender que subir num palco é carregar consigo não só o beat, mas a responsabilidade de quem fala por tantos que não têm voz. A luta exige saber que, quando se está sendo promovido por estruturas que historicamente oprimem, ou você as confronta com coragem, ou acaba servindo a elas.
É hora de encarar o espelho e entender que a revolução não será televisionada , nem vendida em streaming. A revolução exige sacrifício, exige consciência de classe, exige coragem para morder a mão que alimenta quando essa mão está alimentando com o sangue dos seus.
O problema não foi Veigh apoiar a comunidade trans. O problema foi achar que seu público também apoia. Foi se surpreender com isso. Porque, enquanto artistas não souberem mais quem está ouvindo, correm o risco de cantar para o opressor achando que estão representando o oprimido.
O hip hop não morreu. Mas está sendo vendido em suaves prestações, com beats envolventes e letras afiadas, para quem nunca viveu o peso de uma abordagem policial, o medo de ser preto, pobre, trans, favelado. Está sendo embalado como identidade cool para quem nunca sentiu na pele o que é ser marginalizado de verdade.
O microfone continua potente. Mas ele não faz milagre.
É preciso saber pra quem se canta.
E, principalmente, quem ainda está conseguindo ouvir.
Trago Fatos , Marília Ms.
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