Quanto vale a sua Coca-Cola gelada?
Você que abre a geladeira e sente aquele alívio só de escutar o tsssss do gás escapando da garrafinha. Você que, sob o sol escaldante de uma tarde qualquer, encontra prazer naquele gole doce, gelado e borbulhante. Me diga com sinceridade: quanto você pagaria por isso?
R$5,90? R$7,00? Talvez até R$10 num show ou no cinema. Mas e se eu te dissesse que esse seu gole está custando caro demais , e quem está pagando não é você, mas as nascentes do Rio das Velhas?
É isso mesmo. Em 2015, a Coca-Cola ergueu uma fábrica “modelo” em Caberito, Minas Gerais. Uma dessas que se orgulham de seguir "práticas sustentáveis" e que estampa em letras garrafais seus compromissos com o meio ambiente. O problema é que, por algum motivo nada ingênuo, ela foi estrategicamente posicionada ao lado de uma das mais importantes reservas hídricas de Minas: as nascentes do Rio das Velhas e do Rio Para o Teba, que alimentam o abastecimento de água de milhares de pessoas, inclusive em Belo Horizonte.
Mas o que poderia dar errado, não é mesmo?
Tudo.
Os moradores da região, que sempre viram a água jorrar com abundância, passaram a observar um fenômeno sinistro: o desaparecimento das águas. Córregos virando filetes, poços secando, riachos virando poeira. Os estudos confirmaram o óbvio: a Coca-Cola estava sugando a água do lençol freático em volumes tão absurdos que as nascentes começaram a desaparecer.
O mais irônico? Ninguém pareceu se importar muito. Afinal, enquanto você puder continuar tomando sua coquinha gelada com gelo e limão, que diferença faz se um rio secar?
É como se tivéssemos importado um roteiro alternativo da Fantástica Fábrica de Chocolate, trocando o rio doce de Willy Wonka por um rio de Coca-Cola, e transformando os meninos curiosos em comunidades inteiras privadas de água potável. É como se disséssemos: "Secou o rio? Que tal enchê-lo com Coca? Um tibum gelado, cafeinado e patrocinado por uma das maiores multinacionais do planeta. Maravilhoso pra você. Um pesadelo pra todo o ecossistema local."
Claro que houve multas. O governo precisa manter as aparências. Mas a punição foi proporcional à gravidade do crime? Nada disso. A multa foi de algumas centenas de milhares de reais. Para a Coca-Cola, isso equivale a pouco mais de uma hora de produção. Uma gota no mar , ou melhor, uma bolha num copo de refrigerante.
E nos vendem isso como "compensação ambiental".
Nos dizem que esse dinheiro será "revertido" para projetos socioambientais. Que bom. Quem sabe plantem algumas mudas de árvore enquanto o lençol freático leva décadas para se recompor , se é que vai conseguir.
Mas a pergunta real não é sobre a multa. A pergunta real é: por que seguimos permitindo que o lucro de multinacionais valha mais do que a água de um povo?
É como se tivéssemos normalizado a ideia de que o desenvolvimento precisa passar por cima da vida. Que é aceitável trocar rios por fábricas, peixes por garrafas PET, e biodiversidade por dividendos. Tudo isso para garantir que nada falte à nossa sagrada coquinha do fim de semana.
Vivemos numa época em que a água virou ativo financeiro, e os rios viraram obstáculos para a produção em larga escala. A ganância corre mais rápido que os córregos. E o Estado , que deveria ser o protetor dos bens naturais , se ajoelha diante da marca vermelha da felicidade líquida.
Não se iluda com campanhas coloridas e palavras como “sustentabilidade”. Nada é sustentável quando comunidades inteiras são deixadas sem água. Nada é ético quando um gole de refrigerante custa a existência de uma nascente. E nada é aceitável quando a sua sede de Coca-Cola suga a vida de um rio inteiro.
Então, na próxima vez que abrir uma garrafa e ouvir o som borbulhante, lembre-se: essa felicidade líquida tem preço. E quem paga, muitas vezes, nem sabe o que é refrigerante.
Trago Fatos, Marília Ms.
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