Quando a violência é maquiada pelo prestígio: O silêncio branco do Colégio Mackenzie
No coração de um dos bairros mais ricos de São Paulo, entre ruas de árvores bem cuidadas e prédios com segurança 24 horas, uma adolescente negra de 15 anos foi encontrada desacordada dentro do banheiro do Colégio Presbiteriano Mackenzie, com um saco plástico na cabeça. A jovem, aluna bolsista, está viva , mas sobrevive, agora, internada em um hospital psiquiátrico. Seu corpo e sua mente ainda buscam respostas para o que a sociedade insiste em esconder: o racismo estrutural, institucional e letal que se esconde até nas escolas ditas “de excelência”.
O Mackenzie não é qualquer colégio. Trata-se de uma das instituições mais tradicionais da elite paulistana, com mensalidades que ultrapassam os R$ 5 mil e com um discurso cristão que, ao que parece, ficou preso nas paredes do marketing. É uma escola que prega valores bíblicos, mas silencia diante da dor de uma menina negra que sofreu , segundo denúncias da própria mãe , racismo recorrente por parte de colegas. Chamadas de cunho racial, homofóbico e até humilhações públicas foram relatadas. Palavras pesadas, ofensivas, que não deveriam ser toleradas nem por um segundo em um ambiente de formação humana.
Mais grave ainda é o fato de que, de acordo com relatos da família, a coordenação foi avisada. A mãe teria procurado a escola mais de uma vez para relatar o sofrimento da filha. E, como resposta, segundo denúncias divulgadas por veículos como UOL, a adolescente teria sido desacreditada por uma coordenadora, que afirmou se tratar de "mimimi" ou "síndrome de perseguição". Quando a autoridade escolar deslegitima a dor de uma aluna, ela não só falha pedagogicamente , ela colabora ativamente para o agravamento da violência.
O caso, de uma gravidade incontestável, ainda não ganhou a repercussão nacional que deveria. Enquanto isso, a adolescente , segundo relatos nas redes sociais , teria sido chantageada, obrigada a interações físicas não consentidas e filmada, com os vídeos circulando entre colegas. O conteúdo presente no celular da jovem está sob análise, segundo informado por sua família. Mas até agora não se ouviu falar da apreensão dos celulares dos demais envolvidos. A pergunta é inevitável: por quê?
A suspeita é que haja uma tentativa de abafamento do caso. Afinal, trata-se de uma escola com pais influentes: filhos de juízes, empresários, políticos, pastores e executivos. Há quem afirme que o dinheiro circula para silenciar a verdade , seja evitando coberturas jornalísticas mais incisivas, seja “conduzindo” investigações por caminhos mais brandos. O que se pergunta aqui não é apenas “quem fez isso?” , mas também “quem protege quem fez isso?”
A denúncia escancara um sistema que funciona de forma perversa: quem tem menos, precisa provar o tempo inteiro que merece estar ali. Quando é bolsista, quando é negro, quando é LGBTQIA+, a vigilância dobra. Não basta tirar nota boa. Tem que aguentar as piadas racistas e os olhares de superioridade. Tem que ser forte quando é humilhado. E, quando finalmente quebra, é visto como problema.
O irmão mais novo da vítima, de 13 anos, também foi alvo de ataques , chamado de “macaco”, segundo relato da mãe. Uma criança de apenas 7 anos, também irmão da estudante, teria sofrido manifestações racistas na escola. E o que fez o Mackenzie? Em nota protocolar, afirmou que prestou os atendimentos necessários e que está “apurando os fatos”. É uma resposta pronta, protocolar, que serve mais para blindar a instituição do que para proteger quem mais precisa.
Se a escola fosse um ambiente realmente comprometido com o que diz pregar , valores cristãos, igualdade, amor ao próximo , esse caso teria sido tratado com a seriedade e a urgência de uma tentativa de feminicídio e racismo institucional. A família da adolescente, segundo nota pública, proibiu qualquer contato da instituição com a vítima. Esse dado, por si só, já denuncia a ruptura do vínculo de confiança entre quem estuda e quem educa.
A pergunta que não cala é: por que o Colégio Mackenzie ainda não prestou esclarecimentos públicos contundentes? Por que a mídia tradicional ainda não dedicou manchetes a esse episódio? A invisibilização dessa adolescente é o reflexo cruel de uma sociedade que seleciona quem merece empatia , e quem deve ser silenciado.
É preciso dizer com todas as letras: esse não é um caso isolado. É o sintoma de uma escola brasileira que ainda normaliza o racismo em seus corredores, que encobre assédios morais e físicos quando os autores são filhos de famílias ricas e influentes. É uma denúncia contra a cultura da impunidade que se esconde atrás de mensalidades exorbitantes, muros altos e discursos vazios de ética.
Não basta se declarar “escola cristã” se não for capaz de proteger o próximo , especialmente o mais vulnerável. A cruz em sua fachada não pode ser só ornamento: precisa ser um lembrete do dever moral de acolher, proteger e cuidar. E falhar nisso, neste caso, pode ter custado a sanidade e a integridade de uma menina de apenas 15 anos.
O silêncio que agora ecoa dentro do Mackenzie não é só um silêncio de dor. É o silêncio de uma sociedade que precisa se posicionar. Que precisa exigir investigações sérias. Que precisa proteger meninas negras, pobres e LGBTQIA+ como se fossem suas próprias filhas. Porque são.
Trago Fatos , Marília Ms.


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