O teatro digital de Nikolas Ferreira e o pânico institucional: a política transformada em algoritmo


O deputado federal Nikolas Ferreira voltou a ocupar o centro das atenções , não por apresentar um projeto de lei relevante, tampouco por liderar qualquer iniciativa concreta que combata as mazelas sociais do Brasil, mas por publicar um vídeo sobre supostas fraudes no INSS, que rapidamente alcançou mais de 70 milhões de visualizações em menos de 24 horas. O conteúdo viral, carregado de uma retórica sensacionalista e alarmista, acusava o governo federal de promover o "roubo dos velhinhos", criando mais uma peça narrativa pensada não para informar, mas para inflamar.

Essa nova onda de comoção digital acendeu um alerta no Palácio do Planalto. O fantasma do vídeo do Pix , também impulsionado por Nikolas no início do ano e que forçou o governo a montar um aparato de reação midiática — ainda paira sobre os bastidores do poder. Desta vez, membros da bancada governista e integrantes da base estão reunindo esforços para montar um contra-ataque comunicacional, orientando parlamentares aliados a elaborarem um roteiro de respostas. O medo é legítimo: em uma era em que o TikTok molda a opinião pública mais do que o Diário Oficial, o governo teme mais um abalo de reputação por uma peça audiovisual maliciosamente montada.

Mas o que está por trás dessa nova investida do deputado mineiro? A resposta é simples: Nikolas Ferreira não faz política. Ele faz marketing de guerrilha digital.

Sua estratégia é a mesma de sempre: capturar um tema sensível , neste caso, aposentadorias e benefícios sociais , e revesti-lo de escândalo, ainda que sem provas consistentes ou análise responsável. Ele não investiga, ele não apura, ele acusa. E acusa com uma linguagem maniqueísta, onde o “inimigo” é sempre o Estado, o “vilão” é sempre o governo, e a “vítima” é sempre o povo indefeso. É uma fórmula eficaz para viralizar, mas desastrosa para o debate público e perigosa para a democracia.

O caso do INSS, por exemplo, merece uma discussão séria. Fraudes existem , como em qualquer grande sistema estatal , e devem ser combatidas com inteligência, investigação, controle social e modernização. Mas Nikolas prefere o caminho mais fácil: o do estardalhaço. Ele insinua, de forma deliberadamente vaga, que o próprio governo participa ou se omite diante de um "roubo institucionalizado". Sem apresentar relatórios, sem nomear fontes técnicas, sem respeitar as nuances. É um enredo pronto para a viralização, mas vazio de responsabilidade cívica.

A consequência é dupla. De um lado, ele causa pânico e desinformação entre aposentados e segurados do INSS, que já vivem sob insegurança. De outro, enfraquece as instituições, colocando a credibilidade da Previdência e do governo em xeque, sem oferecer nenhuma solução viável. O objetivo nunca é resolver , é causar. E se possível, colapsar a confiança no sistema, porque quanto mais medo e indignação, mais cliques, curtidas e seguidores.

O trauma do governo com o vídeo do Pix não é apenas pelo conteúdo em si, mas pelo seu impacto. Nikolas, com apenas alguns minutos de vídeo, conseguiu semear dúvida sobre um dos sistemas mais eficientes e populares criados recentemente. O estrago, mesmo depois de desmentido, já estava feito. E o que assusta o Planalto é justamente isso: a capacidade de um deputado isolado de moldar a percepção pública mais rápido do que qualquer coletiva de imprensa ou pronunciamento oficial.

Estamos vivendo um tempo em que a política tradicional se vê acuada por um novo tipo de militância: a militância de palco digital. Nikolas Ferreira é o avatar perfeito desse fenômeno. Ele não precisa legislar , precisa performar. E enquanto os demais parlamentares estão em comissões técnicas discutindo normas e reformas, ele está diante de uma câmera, construindo narrativas que pegam fogo nas redes sociais, ainda que destruam a racionalidade do debate público.

Cabe à sociedade , e, sim, ao governo , entender que a disputa política hoje não se dá apenas nos plenários, mas nas timelines. A resposta a Nikolas não pode ser apenas institucional, burocrática ou técnica. É preciso disputar a narrativa, com fatos, com empatia e com agilidade. Não se pode permitir que a mentira chegue antes da verdade em 70 milhões de celulares e depois fique por isso mesmo.

O Brasil real não cabe em um vídeo de 2 minutos com trilha dramática e manchete manipulada. O Brasil real está na fila do INSS, na luta por aposentadoria, na espera por perícia, nos rostos cansados de quem trabalhou a vida inteira. Usar essa dor como instrumento de autopromoção política não é apenas desonesto , é cruel.

Nikolas não é novo na política. Ele é novo no formato. Mas sua lógica é tão velha quanto o populismo: agitar, dividir, acusar. E se for desmentido? Azar. O vídeo já rodou. O estrago já foi feito. E a verdade... a verdade que lute para viralizar.

Trago Fatos , Marília Ms.

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