O Silêncio do CFM e o Barulho da Hipocrisia



Na briga midiática entre Antonella e Liz Macedo , duas adolescentes que viralizaram não apenas pelas discussões públicas, mas também por algo muito mais grave , surge uma pergunta incômoda e urgente: onde estava o CFM (Conselho Federal de Medicina) quando duas meninas, com menos de 16 anos, se submeteram a cirurgias plásticas estéticas como se isso fosse tão simples quanto cortar o cabelo? Enquanto uma adolescente colocava silicone e a outra entrava em centro cirúrgico para uma rinoplastia, nenhuma entidade médica pareceu se incomodar. Nenhuma nota oficial. Nenhuma recomendação pública. Nenhum escândalo institucional. Nenhuma linha no jornal. Apenas o silêncio , cúmplice, conveniente e seletivo.

Esse mesmo CFM, no entanto, ergue sua voz com autoridade quando o assunto é uma pessoa trans adulta, com mais de 18 anos, buscando realizar uma cirurgia de afirmação de gênero. De repente, surgem preocupações com “maturidade”, com “decisões precipitadas”, com “psiquiatria”, “impacto psicológico”, “pressão da sociedade” e toda uma lista de justificativas que desaparecem magicamente quando a cirurgia em questão é estética, normativa e cisgênero.

Querem proibir que um jovem adulto de 18 anos decida sobre o próprio corpo. Sim, a mesma idade que já permite que se vote, que se case, que se assine contratos, que se vá para a guerra se preciso for. A mesma idade em que a medicina permite bisturis para levantar o nariz, aumentar os seios ou fazer lipoaspiração, mas parece não permitir que se redesenhe o próprio gênero.

Por quê?

Porque, para o CFM, parece que o problema não é a idade, não é o procedimento, não é o bisturi, nem o risco , é a identidade de quem está na mesa de cirurgia. Ou seja: ou o CFM anda com uma venda nos olhos para os absurdos da estética precoce imposta a meninas na puberdade, ou simplesmente escolhe onde e contra quem quer agir com rigor. E a escolha, infelizmente, recai repetidamente sobre a população trans.

E essa perseguição não é nova, apenas ganhou novas roupagens. Enquanto adolescentes cis são incentivadas a "se arrumarem", "melhorarem a autoestima", "fazerem plástica como presente de 15 anos", jovens trans têm que provar, justificar, implorar por seu direito de existir em corpos que condizem com sua identidade. A transição é tratada como desvio, enquanto a intervenção estética é celebrada como conquista.

O mais hipócrita é que, no Brasil do pós-Bolsonaro, um país que naturalizou a prescrição de cloroquina sem eficácia, o uso de ivermectina como solução milagrosa e até a aplicação de ozônio no ânus como tratamento experimental, o CFM finge agora ser o guardião da ética médica. Onde estavam esses zeladores da saúde pública quando médicos receitavam absurdos anticientíficos em nome de uma ideologia? Onde estavam quando se criou um mercado da “cura alternativa” recheado de charlatanismo, negacionismo e desinformação?

Estavam calados , ou coniventes.

Mas quando um jovem trans busca por dignidade corporal, o bisturi vira tabu. Quando uma pessoa trans quer acessar um direito que é dado livremente a qualquer cis que deseje uma mudança estética, a medicina se arma de moralismo. E isso tem nome: transfobia institucionalizada.

Se o argumento fosse coerência médica, o CFM já teria se posicionado contra toda cirurgia estética em menores de idade , ponto. Mas não é isso que acontece. O que vemos é um uso seletivo da autoridade médica para reforçar padrões, normatividades e preconceitos.

Antonella e Alice não são culpadas , são sintomas. Símbolos de uma sociedade que erotiza a infância, pressiona meninas a se adequarem a um padrão físico violento e enche clínicas de cirurgia plástica com adolescentes que sequer completaram o ensino médio. Mas, para o CFM, isso é normal. Isso não gera debate. O que gera indignação é o transgresso: é uma pessoa trans afirmar o próprio corpo com a mesma autonomia que outras já exercem há décadas.

Portanto, fica a pergunta: o CFM quer mesmo proteger vidas, ou proteger o privilégio de quem sempre pôde mudar, contanto que permanecesse dentro dos limites do cis, do hétero, do “aceitável”?

Porque enquanto o Brasil permite que uma adolescente cis coloque silicone aos 15 anos como prêmio por notas boas, e nega a um jovem trans de 18 anos o direito de moldar sua identidade, o problema não está nos bisturis , está nos olhos de quem julga. E no silêncio de quem deveria zelar por todos, mas escolhe a quem proteger.

Trago Fatos , Marília Ms.

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