O PSB em Sergipe e a rendição à lógica do poder pelo poder
O recente encontro do PSB em Sergipe, com a presença do presidente nacional do partido, Carlos Siqueira, e do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, passou quase invisível diante da opinião pública. E não foi por acaso. O que deveria ser um momento de reafirmação política e ideológica do Partido Socialista Brasileiro revelou, na verdade, um retrato sombrio de um partido sem alma, desconectado de suas bases históricas e submisso à lógica da conveniência.
A imagem do evento fala mais que os discursos: lideranças que nada têm de socialistas dividindo a mesma mesa em nome de uma “unidade” construída à força, baseada em alianças que ferem frontalmente os princípios que um dia sustentaram o PSB. O partido que, até pouco tempo, se libertava do controle da família Valadares agora parece ter trocado de coleira , desta vez, amarrado aos interesses do clã Mitidieri. Mudam os sobrenomes, mas permanece a lógica patrimonialista e oligárquica.
Restam poucos nomes que ainda simbolizam algum resquício de identidade programática, como o vereador Elber Batalha, cuja trajetória é marcada por compromisso com causas populares e coerência com as lutas históricas da esquerda. Mas Elber parece ser uma exceção isolada em meio à ocupação desenfreada de um partido que, em tese, ainda carrega o nome "socialista".
O exemplo mais emblemático dessa distorção é a presença de Rodrigo Fontes no centro das articulações partidárias. Um vereador bolsonarista convicto, defensor de pautas reacionárias e agora cotado para representar o PSB na disputa por uma vaga na Câmara Federal. O mesmo PSB que saúda Miguel Arraes como símbolo de resistência democrática e socialista agora se curva a quem representa, ideologicamente, o exato oposto de seu legado.
A incoerência beira o deboche. O mesmo partido que se diz defensor da democracia e das lutas populares oferece palanque a quem legitimaria a ditadura que perseguiu e exilou Arraes. Enquanto isso, militantes históricos assistem, estarrecidos, ao esvaziamento programático e à transformação do PSB numa sigla de aluguel. Uma caricatura de si mesmo.
Não se trata de purismo ideológico ou de nostalgia política. Trata-se de decência. De coerência mínima. De não transformar um projeto político em balcão de negócios. O processo de "emedebização" (ou "pessedização") que o PSB vive em Sergipe é um alerta: sem princípios, todo crescimento é inflado, toda vitória é falsa, todo discurso é oco.
“Prefiro ir para a cadeia a trair o povo”, disse Arraes ao ser deposto pela ditadura. Décadas depois, o PSB sergipano parece ter criado um lema próprio, perverso e tristemente atual: “Prefiro trair a história a ficar sem cargo”.
Construir um partido a partir de compromissos reais com a justiça social, com a democracia participativa e com as lutas do povo é, sim, um caminho mais longo e difícil. Mas é o único caminho que não leva à irrelevância moral. Sem isso, o PSB continuará se asfixiando em alianças que lhe garantem sobrevida institucional, mas lhe roubam a alma.
Enquanto confunde oportunismo com crescimento, o PSB de Sergipe vai se perdendo , e, pior, nem parece se importar.
Trago Fatos, Marília Ms.
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