O novo tótem de segurança da Guarda Municipal de Aracaju: avanço tecnológico ou ilusão de proteção?
A implantação dos novos tótens de segurança pela Guarda Municipal de Aracaju vem sendo alardeada como uma grande inovação. Uma resposta tecnológica à insegurança urbana. Um alívio para os cidadãos e cidadãs que circulam diariamente por pontos de alta movimentação, como os Arcos da Orla ou o Mercado Central. Mas será que essa novidade é, de fato, um passo à frente rumo a uma cidade mais segura? Ou seria mais uma solução superficial para problemas que exigem medidas estruturais e políticas públicas robustas?
Com câmeras 360º, reconhecimento de placas, sensores de movimentações suspeitas e um botão de emergência que aciona a Guarda Municipal diretamente, o tótem promete ser um vigia eletrônico de prontidão 24 horas. Tudo isso conectado à Central de Videomonitoramento da GM, sob os olhos atentos de “guardiões” do espaço público. A descrição é digna de ficção científica. Mas é aí que começam os questionamentos.
Tecnologia é boa. Mas sozinha, não resolve.
É preciso pontuar: investir em tecnologia não é, por si só, um erro. A criminalidade e os problemas urbanos mudam, se adaptam, se sofisticam. Logo, é natural que as ferramentas do poder público também se atualizem. Tótens com câmeras de alta precisão e conexão direta com uma central de comando podem ser importantes aliados para a contenção de crimes imediatos, casos de emergência, ou até para o monitoramento preventivo em áreas sensíveis.
Mas segurança pública não se garante com tótens.
A segurança real, profunda, duradoura, passa por questões muito mais amplas: políticas de inclusão social, oportunidades de trabalho, urbanização digna, acesso à educação, atendimento de saúde mental, presença constante e humana das forças de segurança nos bairros mais periféricos e menos visíveis à elite turística da cidade.
O tótem é um símbolo. E símbolos, às vezes, escondem mais do que mostram.
Escolher instalar os primeiros tótens nos Arcos da Orla e no Mercado Central é uma decisão estratégica , e simbólica. Não se trata apenas de proteger cidadãos, mas de tranquilizar turistas e passar uma imagem de cidade segura. Não por acaso, esses são os locais mais filmados, mais instagramáveis e mais mostrados nas propagandas institucionais.
A pergunta é: e o Bairro América? E o Santos Dumont? E a Zona de Expansão?
Quem cuida da segurança dos bairros com maiores índices de violência? Vai haver tótem na porta da escola pública de periferia onde professores precisam trabalhar sob ameaça? Vai haver botão de emergência na praça esquecida, onde jovens se reúnem por falta de alternativas de lazer?
Monitoramento ou vigilância?
Outro ponto que precisa ser debatido com responsabilidade é o risco do autoritarismo tecnológico. Monitorar 360º, rastrear placas, identificar movimentos suspeitos , tudo isso parece moderno e seguro à primeira vista. Mas quem define o que é “suspeito”? Um jovem negro de mochila andando à noite na orla será identificado como suspeito? Um ambulante tentando vender seus produtos será acionado como “perturbador da ordem”? O botão de emergência pode virar denúncia seletiva e arbitrária?
A tecnologia, sem um projeto social e ético por trás, pode reproduzir preconceitos estruturais com mais eficiência.
O perigo não é a câmera, mas quem controla a câmera. O perigo não é o tótem, mas o sistema político que vai usar os dados do tótem para fins questionáveis.
Custo versus impacto
Quanto custa cada tótem? Qual é o investimento total? Quanto está sendo gasto em comparação, por exemplo, com projetos de policiamento comunitário, programas de esporte e cultura nos bairros, ou atendimento psicológico para vítimas de violência? Nenhuma dessas perguntas foi respondida com transparência. E quando não há transparência, o investimento vira suspeita.
É um velho truque político: gastar em algo visível para esconder o invisível.
A população vê o tótem. Fotografa o tótem. Compartilha o tótem. Mas continua sofrendo com falta de policiamento real, com a violência cotidiana nos ônibus, com a sensação constante de medo nos bairros afastados.
O futuro da segurança precisa ser mais humano
O futuro da segurança pública não é apenas eletrônico. O futuro é comunitário, é humano, é solidário. Um tótem pode acionar uma central, mas não acalma uma criança que vive em uma área dominada por facções. Uma câmera pode gravar um assalto, mas não evita que ele aconteça quando não há presença policial real. Um botão de emergência pode salvar uma vida em casos pontuais, mas não salva uma cidade inteira da insegurança crônica.
Por isso, antes de aplaudir a novidade, precisamos perguntar: o tótem é solução ou distração?
É inovação ou maquiagem?
É cuidado com o cidadão ou propaganda para o eleitor?
O novo tótem da Guarda Municipal de Aracaju pode ser uma ferramenta útil , desde que seja parte de uma política séria, ampla, crítica e comprometida com a dignidade de todos os cidadãos, e não apenas com os cartões-postais da cidade.
Porque segurança pública de verdade não se instala em totens. Se constrói em políticas. E se cobra em ações.
Trago Fatos, Marília Ms.


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