O Lixo que Vem de Cima: O Caso do Ex-sócio da Filha de Rogério Carvalho e o Fedor da Política Sergipana




A política sergipana voltou aos holofotes nacionais , mas não pelos motivos que gostaríamos. A terceira fase da Operação Overclean, da Polícia Federal, lançou luz sobre um emaranhado de conexões suspeitas entre empresários, emendas parlamentares milionárias, contratos públicos e... uma filha de senador. O epicentro do escândalo: Gabriel Mascarenhas, ex-sócio de Raquel Carvalho, filha do senador Rogério Carvalho (PT-SE), e figura próxima ao esquema comandado por José Marcos Moura, o infame “Rei do Lixo”.

Mascarenhas é acusado de atuar como lobista, articulando a liberação de recursos federais , quase R$ 120 milhões , via emendas parlamentares, para beneficiar empresas que supostamente integravam uma rede de fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. A PF aponta que os tentáculos do esquema chegavam a ministérios como o da Agricultura e o do Desenvolvimento Regional. E é aí que a história se torna ainda mais incômoda.

A empresa Care Line Investimentos e Participações, fundada por Mascarenhas em 2018, teve entre seus sócios ninguém menos que Raquel Carvalho, filha do senador. Ela ingressou na sociedade em 2021, aos 19 anos , uma idade em que a maioria dos jovens ainda busca o primeiro emprego. A empresa foi encerrada discretamente em outubro de 2024, dois meses antes da deflagração da operação. Coincidência?

A situação se agrava quando se observa que a esposa de Mascarenhas, Evellin Siqueira, ocupava um cargo no gabinete de Rogério Carvalho em Aracaju até março de 2023, recebendo um salário superior a R$ 14 mil. Contratada com dinheiro público, comissionada, e , por mais que se tente descolar as figuras , envolta no mesmo universo de relações suspeitas que agora emergem nas investigações da Polícia Federal.

O senador Rogério Carvalho afirma que não é alvo da investigação e que a empresa da filha era legal. A afirmação é protocolar, e pode até ser verdadeira , mas não responde ao que a opinião pública realmente quer saber: qual é o limite ético para as relações familiares dentro da política? E mais: por que tantos gabinetes viram abrigo de parentes, sócios, amigos e esposas de figuras envolvidas em escândalos?

A política brasileira, e a sergipana em particular, se notabilizou pela promiscuidade entre o público e o privado. O caso atual é um retrato fiel desse modus operandi: empresários e políticos trocando favores, distribuindo emendas como moedas, criando empresas de fachada e promovendo parentes como se a gestão pública fosse uma extensão do patrimônio familiar. O problema não é a ilegalidade explícita (que pode ou não ser provada), mas o evidente desprezo pela ética, pela transparência e pela responsabilidade com o dinheiro do povo.

A operação Overclean, ironicamente batizada com um nome que remete à limpeza, escancara o quanto o sistema está sujo. Um “Rei do Lixo” domina contratos públicos milionários. Um lobista intermedeia emendas com base em influência e sobrenomes. E uma jovem de 19 anos torna-se sócia de uma empresa que, logo em seguida, desaparece do mapa. Isso é o retrato do Brasil real: o da elite política que opera com liberdade, enquanto a população paga a conta.

Sergipe merece mais do que o silêncio institucional e as notas frias de esclarecimento. O eleitor precisa de respostas. Precisa saber se o senador Rogério Carvalho, mesmo não sendo formalmente investigado, considera aceitável o envolvimento tão próximo de sua filha e de funcionários do seu gabinete com figuras centrais em um esquema milionário de corrupção. Precisa saber se há arrependimento, omissão ou conveniência.

Enquanto isso, nos bairros mais pobres de Aracaju, a coleta de lixo falha, as UBSs fecham mais cedo, as escolas funcionam em meio a goteiras, e a população sobrevive com um salário mínimo , quando sobrevive. Não há R$ 14 mil por mês para mães solo. Não há sociedade empresarial para jovens comuns. Há apenas o peso de uma estrutura corrupta que insiste em servir sempre aos mesmos nomes, sempre aos mesmos clãs.

O escândalo do ex-sócio da filha de Rogério Carvalho nos obriga a encarar uma ferida crônica da democracia brasileira: o uso da política como trampolim pessoal, como feudo familiar, como moeda de poder. A corrupção institucionalizada não se faz apenas com malas de dinheiro, mas com contratos silenciosos, amizades convenientes e empresas estrategicamente encerradas na véspera do escândalo.

É preciso mais do que investigações. É preciso um expurgo ético. E, acima de tudo, é preciso que o povo sergipano , e brasileiro , tenha memória nas urnas. Pois o lixo da política só se acumula quando deixamos de varrê-lo para fora do Congresso.

Trago Fatos, Marília Ms.


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