Não foi ciúmes, nem pensão. Foi feminicídio. E ponto.



Não foi por ciúmes.
Não foi por cobrar pensão.
Não foi por uma live.
Não foi por uma briga conjugal.
Não foi pelo boletim da escola do filho.
Não foi pelo decote, pelo tom de voz, nem pela hora que ela chegou em casa.
Não foi pelo pedido de divórcio.

Foi feminicídio.

E enquanto não chamarmos pelo nome certo, vamos continuar alimentando a morte de mulheres com justificativas medíocres, manchetes distorcidas e silêncio conivente.

A cada dia, o Brasil enterra uma mulher. Em muitos casos, mais de uma. Morrem dentro de casa, por mãos conhecidas, amadas ou temidas. E ainda assim, nas notícias, tentam suavizar:
“Homem comete crime passional”;
“Discussão termina em tragédia”;
“Briga de casal acaba em morte”.

Não foi tragédia. Foi assassinato. E foi motivado por machismo.

É preciso nomear o problema como ele é. Porque toda vez que chamamos feminicídio de “briga de casal”, nós colocamos a vítima no mesmo patamar do agressor. Criamos a falsa narrativa de que havia um conflito bilateral. E não: o que há é um desequilíbrio histórico de poder, onde um lado oprime, controla e destrói. Onde o machismo, muitas vezes autorizado por omissão, termina com o sangue de uma mulher no chão.

Os homens não matam porque “amam demais”. Eles matam porque aprenderam que mulher não é gente. É posse. É coisa. É “minha mulher”, como quem diz “meu carro”, “meu celular”, “minha casa”. Desde meninos são educados a acreditar que podem mandar, controlar, punir, usar, e quando não serve mais — descartar.

Eles não matam por impulso. Eles matam porque se sentem no direito.

O feminicídio não começa no ato final. Ele é só o ponto alto de uma estrutura. Começa na piada que desumaniza. No menino que nunca é repreendido por bater na coleguinha. No pai que ensina o filho a ser “o macho da casa” e a filha a “se dar o respeito”. No Estado que falha em proteger. Na sociedade que julga a mulher morta pelo tamanho da saia ou pela suposta “vida pregressa”. No juiz que pergunta se ela gritou. No vizinho que não quis se meter.

Cada omissão é uma engrenagem nessa máquina de moer mulheres.

Feminicídio não tem justificativa. E buscar uma, mesmo que disfarçada de contextualização, é uma forma perversa de revitimizar. É tornar a vítima corresponsável pela própria morte. É aceitar o inaceitável.

Não é normal um homem espancar uma mulher por ela sair de casa.
Não é normal um homem agredir porque a ex está com outro.
Não é normal um homem matar porque perdeu o controle.

Nada disso é normal. E se você acha que é, ou que há “lados da história”, você faz parte do problema.

O feminicídio é um crime político.

Político porque nasce de uma estrutura de poder que nos diz que mulheres valem menos. Que corpos femininos estão sempre à disposição. Que a raiva masculina é legítima. Que quando um homem perde uma mulher, ele perde um pedaço de si — como se ela fosse dele.

E é por isso que homens violentam, abusam, controlam e matam.
Porque acreditam que podem.
Porque foram ensinados a isso.
Porque a cultura popular os autoriza.
E porque o silêncio da sociedade permite.

A única forma de romper esse ciclo é com nomeação e responsabilização. Chega de dizer “crime passional”. Chega de relativizar a dor de mães, filhas, irmãs, amigas que viram mulheres virarem estatística. Chega de romantizar controle, ciúmes, obsessão.

Ciúmes não mata. O machismo mata.
Live não mata. O patriarcado mata.
Cobrar pensão não mata. O senso de propriedade que homens sentem sobre mulheres, esse sim, mata.

Enquanto a sociedade continuar explicando o feminicídio como resultado de uma “briga”, nós nunca vamos combatê-lo de fato.

Não se trata de uma falha individual. Trata-se de uma cultura de violência de gênero.
E só vamos mudá-la quando encararmos essa verdade de frente, sem eufemismos, sem desculpas, sem rodeios.

Não foi ciúmes. Foi feminicídio.

E nomear o problema é o primeiro passo pra enfrentá-lo.

Trago Fatos , Marília Ms.

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