Mães contra a fome: o grito sufocado nas portas dos supermercados



No último sábado (10), véspera do Dia das Mães, mulheres de coragem ocuparam as portas de supermercados em pelo menos seis estados brasileiros para denunciar uma das maiores tragédias silenciosas do Brasil contemporâneo: a fome. Lideradas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), a ação intitulada "Mães Contra a Fome" escancarou o abismo entre o direito básico à alimentação e a realidade de milhões de famílias brasileiras que não conseguem sequer garantir o feijão de cada dia.

O protesto foi simbólico e visceral. A escolha do dia , véspera de uma data que celebra a maternidade , não foi por acaso. Ao invés de flores, essas mães empunharam cartazes com frases exigindo o aumento do salário mínimo, a redução do preço dos alimentos, o fim da jornada de trabalho 6x1 e, sobretudo, o respeito à vida de quem sustenta esse país de sol a sol. A ação em frente ao supermercado Assaí, na cidade de Diadema (SP), foi o retrato mais nítido do Brasil real: mulheres empobrecidas, trabalhadoras e chefes de família que, entre o cansaço do trabalho precarizado e a angústia de não alimentar seus filhos, encontram força para gritar.

O Brasil que compra o mínimo e deixa o essencial

Lucineia Maria de Araújo, uma das participantes da manifestação, resumiu em poucas palavras o dilema de milhões: “A gente vai no mercado e tudo tá tão caro que não consegue comprar tudo. Tem que comprar o mais necessário. Deixamos muitas coisas sem comprar com as coisas do jeito que tá”. A frase ecoa o drama de uma população que assiste ao salário minguar diante de uma inflação cruel nos itens mais básicos. Segundo o Dieese, 45% dos lares brasileiros vivem com um salário mínimo ou menos. Isso significa que cerca de 12,8 milhões de famílias convivem com a insegurança alimentar. A mesma cesta básica que ultrapassa os R$ 800,00 é um fantasma diário na rotina de quem vive com R$ 1.518,00 — quando tem renda formal.

Enquanto isso, o Brasil joga fora 27 milhões de toneladas de alimentos por ano. Supermercados, redes atacadistas e o agronegócio produzem, lucram e desperdiçam em proporções absurdas, enquanto crianças choram de fome em barracos de lona. Não há como normalizar esse cenário. O ato organizado pelo MLB escancara uma realidade dolorosa: a fome é política, a carestia é política e a omissão é uma forma de violência de Estado.

Trabalhar até a exaustão e continuar passando fome

Outro ponto central da mobilização é o combate à jornada de trabalho 6x1 , um regime exaustivo e perverso que rouba a saúde mental e física dos trabalhadores, especialmente das mulheres negras e periféricas. Trabalha-se seis dias para descansar um, quase sempre mal remunerado e com condições degradantes. Essas mães trabalham, mas continuam passando fome. Trabalham, mas não têm tempo para os filhos. Trabalham, mas continuam à margem do consumo, da segurança e do futuro.

O modelo econômico brasileiro atual não só permite, como depende da existência de uma maioria pobre, vulnerável e com poucas alternativas. O mercado lucra com a precariedade. Supermercados que recebem incentivos fiscais e vendem produtos superfaturados são os mesmos que descartam toneladas de alimentos em bom estado todos os dias. As mesmas redes que fecham os olhos para a miséria nas calçadas de suas lojas não suportam ver uma manifestação legítima diante de suas portas , onde se deveria cobrar impostos, se cobra silêncio.

O protesto como forma de dignidade

A campanha "Mães Contra a Fome" possui um fundo de arrecadação para alimentos e recursos, com apoio via redes digitais, mas é mais do que isso. É um chamado à dignidade, à resistência coletiva, à denúncia do sistema que trata mães como descartáveis e seus filhos como estatística de miséria. É a recusa de aceitar que viver com fome seja normal. É o grito político contra a fome que não aparece no noticiário das elites, mas que enche os estômagos de vazio nas vielas das favelas.

O governo, os empresários, os parlamentares e a elite precisam entender , ou assumir , que não se trata de crise, mas de projeto. A fome no Brasil não é resultado de um erro de percurso, mas sim consequência direta de políticas que favorecem a concentração de renda, a financeirização da comida, os subsídios ao agronegócio exportador e o abandono dos programas de segurança alimentar.

Um país que celebra o Dia das Mães com flores, mas ignora o prato vazio

É preciso ter coragem para dizer: o Brasil que posta homenagens às mães nas redes sociais enquanto fecha os olhos para a sua fome é hipócrita. Um país que transforma o trabalho das mulheres em maternidade compulsória, exploração contínua e invisibilidade sistêmica não tem o direito de chamá-las de “rainhas do lar”. A mulher que está na fila do osso, do sopão e da cesta básica não precisa de parabéns: precisa de renda, comida e respeito.

Enquanto houver mães protestando nas portas de supermercados, ainda há esperança. Ainda há luta. E onde há luta, há possibilidade de transformação.

Porque a fome tem gênero, tem cor e tem endereço. E enquanto o Brasil seguir ignorando isso, seguirá sendo cúmplice.

Trago Fatos , Marília Ms.

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