Mãe é só uma: e o pai, cadê? - Um retrato crítico da ausência paterna no Brasil contemporâneo
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Entre o Dia das Mães de 2024 e o de 2025, ao menos 20 mil crianças nasceram no Brasil sem o nome do pai registrado em suas certidões de nascimento. É um número que assusta, sobretudo por tudo o que ele simboliza: não apenas a ausência física de figuras masculinas na criação dos filhos, mas um apagamento sistemático da responsabilidade paterna em um país que ainda enxerga a maternidade como destino e a paternidade como escolha.
Os dados levantados pela CNN Brasil, com base no Portal da Transparência do Registro Civil, indicam uma leve queda na quantidade de registros exclusivamente maternos em comparação ao ano anterior. Mas celebrar essa redução sem aprofundar o debate é mascarar um problema estrutural. Em São Paulo, por exemplo, foram 7.641 registros de crianças apenas com o nome da mãe , uma queda em relação aos 8.036 do ano anterior. No Rio de Janeiro, foram 4.239 (frente a 4.628). Em Manaus, 3.695 (eram 4.176), e assim por diante.
Essas reduções, embora estatisticamente animadoras, não apagam o cenário grave: milhares de mulheres seguem criando filhos sozinhas, enquanto o Estado e a sociedade continuam permitindo que homens abandonem suas responsabilidades com facilidade burocrática e emocional.
Ser mãe no Brasil: privilégio ou condenação?
A narrativa cultural que romantiza a “mãe guerreira” ou a “mãe solo por escolha” muitas vezes é usada para esconder a dura realidade de quem, na maioria das vezes, não teve escolha alguma. A mulher que aparece sozinha no cartório, logo após o parto, registrando seu filho apenas com seu nome, não é só uma mãe , é uma sobrevivente de um ciclo de invisibilidade, abandono e omissão que parece não ter fim.
O machismo estrutural brasileiro reforça que o homem, ao não querer ser pai, pode simplesmente deixar de sê-lo. E enquanto isso, a mulher, ao engravidar, está automaticamente encarregada da criação, da responsabilidade financeira, do sustento emocional e da carga moral de "ter que dar conta". Isso não é maternidade: é sobrecarga. E nenhuma estatística disfarça isso.
A paternidade que não se cumpre
Não reconhecer o filho no registro é apenas o sintoma mais visível de uma paternidade negligente. Por trás disso, existem famílias desfeitas antes mesmo de começarem, pais que somem após a notícia da gravidez, homens que se recusam a arcar com pensão ou sequer a visitar seus filhos. E, principalmente, um sistema jurídico e social conivente com esse desaparecimento.
Sim, é possível reconhecer legalmente a paternidade através de ações judiciais, exames de DNA e medidas coercitivas. Mas sabemos bem que a justiça brasileira é lenta, cansativa e muitas vezes desestimulante para a mulher pobre, jovem e sozinha , a maioria das mães que registram os filhos sozinhas. Para elas, correr atrás do pai é mais uma batalha num cotidiano de batalhas infinitas.
O romantismo do Dia das Mães: flores para esconder feridas
É paradoxal que essa estatística surja justamente entre dois Dias das Mães. A data, que enche o comércio de corações, descontos e comerciais emocionantes, raramente serve para provocar reflexão. Preferimos flores a dados. Preferimos homenagens vazias a debates profundos.
Mas cada um desses 20 mil registros maternos exclusivos é uma história de dor, de luta, de ausência, de abandono. Cada número é uma mulher que pariu sozinha, que criou sozinha, que carregou o peso da ausência masculina enquanto o mundo aplaudia sua “força”.
É hora de perguntarmos com seriedade: até quando vamos tratar a ausência paterna como um fenômeno isolado e não como parte de um sistema social que permite e, de certa forma, incentiva esse desaparecimento?
Uma nova cultura de responsabilidade
A solução não virá apenas com campanhas educativas ou ações judiciais mais ágeis. O buraco é mais fundo. Precisamos de uma revolução cultural que comece dentro das famílias, passe pelas escolas, seja amplificada pelos meios de comunicação e ecoe na legislação. Precisamos ensinar meninos que ser pai é um ato de responsabilidade e não apenas de biologia. Precisamos que a paternidade seja vista com a mesma intensidade e carga moral que atribuímos à maternidade.
E principalmente, precisamos parar de aplaudir mães por darem conta sozinhas e começar a cobrar os pais que desaparecem, que se isentam, que simplesmente não estão.
Porque enquanto houver crianças sem o nome do pai no registro, não estamos apenas falhando com elas, estamos falhando como sociedade.
E nenhuma queda estatística conseguirá esconder isso.
Trago Fatos , Marília Ms .


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