Luiz Gonzaga, Propriá e a Lenda de Rosinha: Quando o Rei do Baião fincou raízes no coração sergipano





Pouca gente sabe, mas Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, não era apenas um viajante das canções nordestinas , ele era também um caminhante apaixonado pelas terras de Sergipe. E se há um lugar que carrega consigo não só as pegadas do sanfoneiro, mas também o carinho, a amizade e até quem sabe... um amor antigo, esse lugar se chama Propriá.

E não, isso não é lenda. Luiz Gonzaga frequentava Propriá com frequência, sempre muito bem recebido pelo seu grande amigo e anfitrião de honra, Pedro Chaves, político influente da época, figura icônica que ele imortalizou nas músicas chamando de “Parané Pedro do Norte” ou “Parané do Bigodão”. Não é difícil entender o apelido. O coronel Pedro Chaves, como era chamado, tinha mesmo um bigode imponente, daqueles que parecem desenhados pra virar caricatura de líder político nordestino dos tempos de rádio de pilha e palanque na praça.

Mas Pedro Chaves era mais que bigode e poder: era amigo de Gonzaga, daqueles que abrem as portas da cidade, da casa e do coração. Foi ele quem mandou construir a Praça Luiz Gonzaga, localizada na tradicional Rua da Palma, em Propriá, como homenagem ao sanfoneiro que tantas vezes cruzou a cidade levando sua musicalidade e seu carisma. Luiz Gonzaga esteve presente não só na inauguração, mas também na reinauguração da praça , um gesto que demonstra mais do que uma simples cerimônia oficial: demonstra afeto, reconhecimento e raízes.

Mas se a história entre Gonzaga e Propriá parasse por aí, já seria bonita. Só que tem mais.

Muito mais.

"Por isso eu vou voltar pra lá, não posso mais ficar, Rosinha ficou lá em Propriá."
Essa é a frase que, pra muita gente da cidade, soa quase como um hino sentimental. Uma música que passou de geração em geração, ensinada de boca em boca, gravada no imaginário popular. Uma canção que não está entre os hits nacionais de Gonzaga, mas que, em Propriá, é tão sagrada quanto a Ave Maria ao entardecer.

A letra fala de um amor deixado para trás. De um coração plantado como o feijão no roçado. De uma mãe, de um pai, de irmãos , e de Rosinha. Mas... quem era Rosinha? Existiu mesmo?

Aí entra a parte mais saborosa: a do mistério e da lenda.

Dizem alguns mais antigos , e mais corajosos em afirmar , que sim, Rosinha era real. Que Luiz Gonzaga, em suas muitas vindas à cidade, teria se apaixonado por uma moça propriáense. Talvez filha de algum amigo, talvez uma paixão breve, mas marcante. Outros dizem que Rosinha é um personagem simbólico, como tantos nas canções nordestinas, uma representação do amor que fica enquanto o homem parte pra ganhar o mundo. Afinal, Gonzaga era andarilho, artista, sujeito das estradas. E toda estrada tem um amor que ficou pra trás.

No interior, como você bem disse, as histórias ganham corpo, alma e exagero. São aumentadas como fermento em pão quente. E quem somos nós pra separar a verdade da poesia? Porque, no fim das contas, o que é uma música senão uma forma de eternizar o que se viveu , ou o que se desejou viver?

Luiz Gonzaga não precisava de muito pra escrever uma canção. Bastava um olhar, um pôr do sol, um sorriso tímido numa janela de Propriá. O resto, ele resolvia com a sanfona no peito.

E se Rosinha era real ou não, pouco importa. Importa é que Propriá ficou marcada no mapa da música brasileira por causa desse homem. Importa que uma praça leva seu nome. Que o povo da cidade guarda na memória sua presença. Que crianças cresceram aprendendo suas músicas como quem aprende as primeiras palavras. Que Pedro Chaves virou Parané. Que o bigode virou verso. Que o amor virou melodia.

E que talvez, só talvez, Rosinha ainda mora lá, esperando que alguém escreva um novo capítulo dessa história , nem que seja só mais uma música.

E se o povo do interior aumenta as histórias, é porque sabe que às vezes, a verdade não é suficiente para contar tudo que o coração sente.

Trago Fatos , Marília Ms .

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