Itabi e a Pedra da Paciência: onde até o silêncio tem história



Itabi, no interior de Sergipe, é conhecida, com certo tom de folclore, como a "terra do jegue". Um apelido que à primeira vista pode parecer simples ou até cômico, mas que carrega em si a simbologia de resistência, humildade e força do povo sertanejo. O jegue, animal resistente, trabalhador e parte essencial da lida diária do nordestino, representa bem a identidade dessa cidade pequena em tamanho, mas imensa em alma. No entanto, há em Itabi algo ainda mais simbólico do que o jegue , uma pedra. Não qualquer pedra. Uma que carrega em si o peso do tempo, o eco da história e a leveza da contemplação: a Pedra da Paciência.

Esse nome, que parece poético demais para um monumento de pedra, se justifica de maneira quase mística quando conversamos com os moradores da cidade. Dizem que quem senta nela pensa melhor. Que o tempo passa devagar, que decisões difíceis encontram resposta. Que o silêncio ali é mais profundo. E, principalmente, que ninguém sai o mesmo de lá. É como se o granito tivesse aprendido a escutar, ao longo dos séculos, cada angústia, cada dúvida, cada recomeço.

A ciência pode chamar isso de projeção emocional, mas o povo chama de sabedoria do tempo.

O nome do Parque da Pedra da Paciência não é um acaso: a rocha é mais que uma formação geológica — é um marco afetivo, espiritual, simbólico e histórico. Um dos poucos lugares onde o silêncio não incomoda, mas ensina. Onde o tempo desacelera, e o mundo volta a caber na palma da mão. E como se não bastasse o poder meditativo do lugar, há ali também um profundo respeito à ancestralidade.

Antes de sermos modernos, antes de haver parques, antes mesmo de haver cidade, ali era a Lagoa das Panelas — nome que guarda nas entrelinhas o contato com o sagrado indígena. Os moradores ainda encontram vestígios: utensílios de barro moldados por mãos que viveram em comunhão com a natureza. Era um ponto de referência dos povos originários, que ali paravam, acampavam, conversavam com o espírito do tempo. O barro dos povos indígenas e a rocha ancestral se cruzam, criando um elo entre passado e presente, tradição e sobrevivência.

E pensar que tudo isso está em Itabi, cidade que a grande mídia ignora, que o mapa turístico passa por cima, que os guias de viagem sequer mencionam. É uma injustiça simbólica , porque talvez seja justamente em lugares assim, longe do barulho e da pressa, que a alma brasileira ainda respira com calma.

A Pedra da Paciência, tombada como patrimônio cultural de Sergipe, é mais que um monumento. Ela é uma denúncia silenciosa: de que estamos correndo demais. De que esquecemos como é escutar a natureza. De que perdemos a sensibilidade de sentar, calar e só... existir.

Num tempo em que tudo é veloz, útil e descartável, a pedra permanece. Calada, firme, intacta. Ela não precisa gritar para ser escutada. Ela não precisa se mover para gerar movimento. E talvez isso seja o mais revolucionário: lembrar que ainda há poder no que é lento, no que é simples, no que é essencial.

Itabi, com seu jegue símbolo de resistência e sua pedra símbolo de paciência, tem mais a ensinar ao Brasil do que muitos centros urbanos recheados de arrogância e ruído. Ali, o silêncio tem memória. A paisagem tem voz. A história não está apenas nos livros, mas no chão, nas pedras, nas conversas com os mais velhos.

Então da próxima vez que alguém rir ao ouvir falar da “terra do jegue”, lembre-se: essa terra também tem uma pedra que ensina o valor da pausa, da escuta e da ancestralidade. E talvez, nesse mundo barulhento e caótico, o que nos falte seja justamente isso: um pouco mais de paciência. E uma pedra pra sentar e escutar a nós mesmos. Já pensou nisso?

Você toparia conhecer a Pedra da Paciência ou já se sentou em alguma “pedra” parecida na sua vida?

Trago Fatos , Marília Ms.

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