"Isso aqui é só coisa pra gringo ver": Uma crítica cultural ao Largo da Gente Sergipana
"Isso aqui é só coisa pra gringo ver."
A frase é curta, cortante e carregada de ironia. E não foi dita por um forasteiro ou um turista europeu espantado com as belezas tropicais do nosso Nordeste. Foi dita , ou sentida , pelo povo sergipano, que quando soube quanto foi investido na criação do Largo da Gente Sergipana, sentiu o gosto amargo da desconfiança: superfaturamento, ostentação cultural para inglês ver, enquanto nas comunidades falta estrutura básica e investimento real na preservação viva das tradições.
Mas antes de descer o cacete, vamos entender o que é esse “trem”.
O Largo da Gente Sergipana, em Aracaju, é um espaço público que abriga oito estátuas monumentais flutuantes que representam diferentes manifestações culturais do estado de Sergipe. À primeira vista, o projeto parece um gesto grandioso de valorização da cultura local. Afinal, lá estão materializados ícones do nosso folclore: o Lambi Sujo e Caboclinhos, os Bacamarteiros, a Chegança, o Cacumbi, as Taieiras, o Bumba Meu Boi, a Dança de São Gonçalo, e claro, o símbolo visual mais impactante do espaço: o Barco de Fogo, tradicional nas festas juninas de Estância.
É tudo muito bonito. Grande. Imponente.
Mas... e o povo?
E os mestres da cultura popular?
E as comunidades que mantêm essas tradições vivas?
Quanto dessa verba milionária chegou até eles?
Porque estátuas não dançam.
Não rezam.
Não carregam santos.
Não tocam zabumba nem cantam ladainha.
Quem faz isso é gente. Gente de verdade. E gente com fome não preserva cultura. Sobrevive.
É preciso criticar essa política estética que finge valorizar a cultura popular, mas que na verdade a esvazia de sentido, a transforma em peça de museu a céu aberto, em decoração para cartão-postal, em entretenimento para turista registrar com o celular antes de voltar ao hotel com ar-condicionado. O Largo virou o símbolo de uma verdade incômoda: investiu-se mais em cimento do que em gente.
Lambi Sujo e Caboclinhos são mais do que personagens folclóricos: representam a luta, a resistência, a fuga e a astúcia dos negros escravizados. A tradição que ensina que a batalha deve ser vencida pelos indígenas é, na verdade, uma crítica sutil ao apagamento da cultura afro em certos contextos. Já os Bacamarteiros, com seus disparos de pólvora seca, celebram a bravura e a teatralidade nordestina, ainda que o barulho esconda o silêncio das políticas públicas que ignoram esses grupos o ano inteiro.
A Chegança, com seus trajes náuticos, não é uma tradição “nossa”, mas foi abrasileirada a ponto de ganhar alma sergipana. Só que é uma celebração de batalhas que não são nossas — guerras entre cristãos ibéricos e mouros africanos, transplantadas para os trópicos como se fossem herança legítima. Mesmo assim, virou raiz. Como tudo que o Brasil tropicaliza.
O Cacumbi e as Taieiras são sincretismo puro, mistura que só o Brasil sabe fazer: danças afro-religiosas que homenageiam santos católicos e orixás do candomblé ao mesmo tempo. Mas na prática, o que essas tradições recebem em troca de tanta riqueza simbólica? O retrato em fibra de vidro, uma vez por ano, no Dia da Consciência Negra? O reconhecimento de “patrimônio imaterial” que não garante verba nem preservação viva?
A Dança de São Gonçalo escancara outro ponto: o quanto até dentro das tradições populares há disputas de gênero. Na versão sergipana, só homens dançam. As mulheres carregam o santo — e só. Em Minas, ao contrário, a dança é exclusivamente feminina. Por que essas diferenças? Que reflexões são feitas? Estão sendo debatidas nas escolas, nos centros culturais? Ou só nas placas ao pé das estátuas?
E o Barco de Fogo, um espetáculo visualmente fascinante que queima no céu estanciano nas noites juninas, o que recebe em troca da cidade que o homenageia? Estância tem apoio estadual permanente? Os fogueteiros são reconhecidos como mestres da cultura popular? Têm subsídio para manter a tradição viva? Ou estão, literalmente, queimando pólvora do próprio bolso?
Tudo isso importa. Porque a cultura não vive só de homenagem, vive de incentivo.
E quando o povo sergipano diz que “isso aqui é só pra gringo ver”, está dizendo o seguinte: a cultura não é prioridade. É vitrine. É maquiagem de cidade turística. É espetáculo.
Enquanto as estátuas flutuam, o salário dos mestres da cultura afunda.
Enquanto o turista se encanta, o brincante passa necessidade.
Enquanto a elite política corta a fita na inauguração, o artista popular corta o coração ao ver sua arte ignorada 11 meses por ano.
A pergunta que ecoa, então, não é "o que é esse trem?", mas pra quem é esse trem?
Porque se não for pra quem vive, respira e mantém essa cultura de pé...
...então é só mais uma escultura.
...só mais uma maquiagem.
...só mais uma coisa pra gringo ver.
Trago Fatos , Marília Ms .



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