Hytalo Santos – Tradição vs. Algoritmo e a Cegueira das Autoridades




Em um país onde a fama nasce mais depressa do que o senso crítico, Hytalo Santos tornou-se um símbolo de tudo aquilo que a sociedade digital consome com voracidade: ostentação, carisma e polêmicas disfarçadas de entretenimento. Natural de Cajazeiras, na Paraíba, o influenciador ganhou notoriedade dançando brega funk nas redes sociais, mas sua imagem ultrapassou o entretenimento comum. A pergunta que paira no ar é: até quando vamos aplaudir de pé o que deveríamos estar questionando com firmeza?

Hytalo já foi manchete ao enviar iPhones 15 escondidos dentro de cuscuzeiras, uma ação que viralizou por unir a cultura nordestina ao fetiche tecnológico da juventude conectada. Mas o que mais chamou atenção foi o fato de que os próprios convidados para uma festa de entrega dos aparelhos sequer compareceram. Seria descaso? Estratégia? Ou reflexo de uma influência construída não sobre laços reais, mas sobre números de engajamento e storytelling calculado?

O influenciador e suas “crias”

Um dos pontos mais controversos da figura pública de Hytalo está na sua relação com adolescentes e jovens que frequentam sua casa. O próprio influenciador os chama de “crias” , termo popularizado para se referir a jovens próximos, que recebem ajuda, visibilidade e, em alguns casos, moradia. Segundo ele, muitos desses adolescentes estão com consentimento de seus responsáveis e até emancipados legalmente. Contudo, o envolvimento contínuo com menores de idade em vídeos de dança, desafios, coreografias e comportamentos que por vezes geram desconforto entre o público levanta questionamentos sérios.

As imagens compartilhadas nas redes , algumas com conotação considerada por muitos como inadequada para menores , levaram o Ministério Público da Paraíba a abrir uma investigação formal.

 A promotora Ana Maria França, que atua na defesa dos direitos da criança e do adolescente, confirmou que está apurando o conteúdo das postagens, as idades das pessoas envolvidas e o vínculo delas com o influenciador.

O caso se tornou ainda mais delicado quando um vídeo recente, publicado por Hytalo, anunciou a gravidez de uma jovem integrante do seu grupo, de apenas 17 anos, com o irmão do próprio influenciador. A situação foi tratada com normalidade nas redes sociais, como parte da rotina de uma “família digital”, mas gerou grande repercussão entre os internautas que esperam maior cuidado e responsabilidade de figuras públicas com tamanha audiência.

Jogos de azar e o algoritmo conveniente

Outro ponto que chama atenção é a constante divulgação de plataformas de jogos e apostas esportivas, prática recorrente nos conteúdos do influenciador. Apesar da legalização parcial dos jogos online no Brasil, a promoção massiva e quase diária de apostas em perfis frequentados por jovens e adolescentes levanta debates éticos e jurídicos. O conteúdo impulsionado por Hytalo muitas vezes não apresenta os alertas e limitações necessários sobre o risco envolvido, contribuindo para a normalização desse tipo de entretenimento arriscado como alternativa de renda para uma juventude já vulnerável.

Por que ninguém questiona Hytalo?

A grande pergunta é: por que nenhuma autoridade, nenhuma plataforma e quase nenhum influenciador com mais visibilidade tomou posição clara sobre tudo isso? É como se o algoritmo tivesse seus protegidos. Hytalo segue intocado, mesmo com investigações em andamento. Mesmo com denúncias anônimas feitas via Disque 100. Mesmo com a preocupação pública sendo levantada por figuras como Antônia Fontenelle , que, apesar de polêmica, tocou em pontos que a justiça brasileira preferiu ignorar por tempo demais.

Enquanto a sociedade se entretém tentando adivinhar se Beyoncé sabia das festas do P. Diddy, o Brasil ignora o que acontece nas casas e redes dos seus próprios “ídolos” digitais. É muito mais fácil vender a imagem de “paizão”, de herói que “tirou jovens da rua”, do que encarar a dura realidade sobre o uso da infância como capital social para likes, visualizações e contratos publicitários.

Conclusão: a cortina de fumaça do carisma

Hytalo pode ser carismático, sim. Pode ser espontâneo, engraçado, representar a juventude nordestina periférica com orgulho. Mas tudo isso não pode servir como escudo para o que realmente importa: o bem-estar de crianças e adolescentes. Influência digital carrega responsabilidades que vão além do like.

Não se trata de cancelar, mas de responsabilizar. De exigir que figuras públicas que vivem da exposição respeitem os limites da ética, da lei e, principalmente, da infância. Enquanto continuarmos confundindo fama com virtude, vamos seguir permitindo que a cultura do espetáculo siga, impune, construindo impérios sobre silêncios desconfortáveis.

Talvez o que aconteça na casa de Hytalo não seja crime , mas está longe de ser normal.

Trago Fatos, Marília Ms.


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