Fama, dinheiro, OnlyFans, escândalo e o preço de uma vida vazia: o colapso por trás do sorriso ensaiado




“Não aguento mais viver.”

A frase é um grito sufocado. Mas quando dita por Andressa Urach, ex-modelo, ex-miss bumbum, ex-produtora de conteúdo adulto, ex-convertida, ex-polêmica, ex-musa de reality show , virou piada. Virou meme. Virou desdém.

Se tivesse sido dita por uma mãe de família anônima, por uma médica exausta ou uma professora em burnout, talvez houvesse mais empatia. Mas quando vem de quem já foi rotulada como símbolo do escândalo, da exposição, da hipersexualização e da fama efêmera, o julgamento é automático. A internet não perdoa. Principalmente quando é uma mulher que ousou viver fora da cartilha moral que nos impõem.

Mas o que o desabafo de Andressa revela , muito mais do que sua dor , é um sistema que nos ensina que, para sermos alguém, precisamos ser vistos. E que, para sermos vistos, vale tudo: vender o corpo, a alma, a história, a fé, e até a dor.

A promessa mentirosa da fama e do dinheiro

A fama é um bicho traiçoeiro. Ela chega como presente, mas cobra o preço em parcelas altas e invisíveis. Andressa Urach teve tudo o que, no imaginário coletivo, representa “sucesso”: dinheiro, mídia, likes, seguidores, convites para programas de TV, capas de revista. Ela também teve o que o mundo chama de redenção: encontrou a fé, abandonou o conteúdo adulto, se converteu, escreveu livros, pregou em igrejas. Mas o ciclo recomeçou. Voltar para o OnlyFans virou manchete. As escolhas dela passaram a ser julgadas com mais ódio do que nunca.

E tudo isso a levou ao fundo do poço. Não porque ela não soube lidar com as críticas. Mas porque ninguém aguenta carregar tantos personagens e ainda permanecer inteiro.

O corpo como produto, a alma como ruína

Andressa Urach, como tantas outras mulheres, virou mercadoria. A diferença é que ela mesma escolheu se vender, ou ao menos, assim parece. A grande ilusão do conteúdo adulto é a da autonomia. “Ela faz porque quer”, dizem. Mas será mesmo?

Em um sistema onde o corpo feminino é moeda, a hipersexualização é o atalho mais curto para o sucesso. Só que esse sucesso é caro. Segundo estudos recentes sobre a saúde mental de criadores de conteúdo adulto, a incidência de depressão severa é três vezes maior do que em outros grupos profissionais. Ansiedade, vícios, automutilação e ideação suicida compõem o cenário por trás das fotos editadas, dos vídeos encenados, dos sorrisos pagos por assinatura.

É fácil ganhar dinheiro com nudez. Difícil é reconstruir a própria imagem no espelho depois de viver para agradar os desejos dos outros.

E quando a mente desaba?

O colapso não avisa. Ele chega depois que a última foto foi postada, quando as notificações param de tocar, quando a casa está silenciosa e a alma, gritando. Andressa pediu ajuda para se internar, afirmou estar com depressão, sem forças. E foi ignorada. Por quê?

Porque quem vende o corpo, na lógica da internet, “perde o direito de sofrer”.
Porque fama e dinheiro viraram sinônimos de felicidade , e qualquer dor vinda desses lugares parece hipocrisia.

Mas essa é a mentira que nos mata aos poucos: a de que estar bem por fora é suficiente para estar bem por dentro.

A geração do filtro e da falsa alegria

Quantos de nós também estamos fingindo? Quantos já sorriram para a câmera enquanto choravam sozinhos à noite? Quantos compartilham frases de superação enquanto escondem crises de ansiedade? A dor da Andressa é espelho para todos nós. Porque ela representa o auge de um sistema que nos treina para performar felicidade, mesmo quando a alma está em ruínas.

E se até quem ganha dinheiro com o próprio corpo, com os próprios escândalos, com os próprios traumas , como ela , chega ao ponto de não aguentar mais viver, o que dizer de quem vive lutando sem nenhum tipo de holofote?

O que a sociedade faz com os seus ícones descartáveis

Andressa Urach é o retrato mais cruel do nosso tempo. Primeiro, a sociedade a consome. Depois, a descarta. Por fim, a culpa por ter se deixado consumir.

Ela foi desejada, odiada, cancelada, santificada, e novamente odiada. Tudo em menos de uma década. Sua dor virou entretenimento, seu sofrimento virou “castigo”, seu pedido de socorro virou manchete de site de fofoca.

É isso que fazemos com quem ousa viver fora da caixa: amamos ver brilhar, mas amamos mais ainda ver cair.

O preço de uma vida vazia

A verdadeira tragédia aqui não é a fama, nem o dinheiro, nem o OnlyFans. A tragédia é achar que tudo isso vai preencher o vazio. É acreditar que a validação do outro vai nos curar da falta de amor-próprio. É ignorar os sinais da mente, do corpo, da alma ,até não restar mais nada além do cansaço de existir.

Andressa Urach teve tudo. Mas faltou o essencial: acolhimento, cuidado, escuta e, sobretudo, liberdade para existir sem ser engolida pelos rótulos.

Se há algo a aprender com essa história, é que talvez a gente precise parar de julgar e começar a ouvir. Antes que seja tarde.
Porque dor não tem currículo.
Dor é dor. E ponto.

Trago Fatos , Marília Ms.

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