Enquanto Itabaiana brilha com um milhão, Maruim apaga em silêncio: a farsa da distribuição de recursos em Sergipe
No plenário, a voz embargada de indignação de um representante de Maruim ecoa:
“Por que Itabaiana recebe um milhão de reais para um show, enquanto Maruim mal consegue verba para cultura, saúde e saneamento?”
A pergunta, apesar de simples, carrega o peso de décadas de desigualdade estrutural. E mais do que um desabafo, ela expõe uma ferida aberta na política sergipana: a distribuição seletiva de recursos públicos em nome do entretenimento, da conveniência e dos interesses eleitorais.
Sim, estamos falando de um show do DJ Alok, que em tom irônico virou “Elon Musk” nos corredores do povo , tamanha é a distância entre o artista e a realidade local. Um milhão de reais. Dinheiro público. Destinado a uma apresentação musical no município de Itabaiana. A conta foi paga com verbas do governo estadual, que supostamente deveriam ser destinadas ao fomento da cultura, mas que, na prática, alimentam uma política de pão e circo que ignora as necessidades básicas de dezenas de outros municípios.
E Maruim?
Maruim não recebe.
Não porque não tenha cultura. Não porque não tenha história.
Mas porque não tem holofotes, aliados fortes no Executivo ou eventos com apelo midiático suficiente para justificar o gasto público com fogos e fumaça.
O debate no Parlamento de Sergipe é apenas um reflexo do que muitos cidadãos já sentem há muito tempo: a desigualdade na aplicação do dinheiro público se manifesta até na festa. E o problema não está na cultura, nem nos artistas, nem no povo que gosta de um bom show. O problema está em um sistema que privilegia o espetáculo enquanto marginaliza o essencial.
Itabaiana é importante? Claro. É um polo regional, tem tradição, movimenta economia.
Mas quando um milhão de reais é destinado a um show, enquanto Maruim enfrenta esgoto a céu aberto, ruas esburacadas e jovens sem acesso a programas culturais ou esportivos, é preciso se perguntar: onde está o critério?
O critério, ao que parece, é o da conveniência política.
Financiar grandes eventos se tornou uma forma de promover governos e alimentar vaidades em ano pré-eleitoral. Virou marketing, palanque com luz LED.
Enquanto isso, cidades como Maruim , e tantas outras do interior , continuam invisíveis no mapa da cultura, da infraestrutura e da dignidade.
A discussão no Parlamento deveria abrir uma reflexão muito maior: qual é a função social do recurso cultural?
Porque cultura não é luxo, não é favor, e muito menos palanque político.
Cultura é direito. Cultura é política pública que precisa chegar nas escolas, nas periferias, nos pequenos municípios que não têm trio elétrico, mas têm história viva.
A fala do parlamentar de Maruim não é só sobre música.
É sobre a lógica perversa que determina quem recebe e quem não recebe.
É sobre a manipulação de verbas públicas como se fossem moeda de troca para aplausos.
É sobre um Estado que dança ao som da elite, enquanto o povo da base mal escuta a batida da dignidade.
Elon Musk nunca cantou em Sergipe.
Mas a confusão com o nome de Alok é reveladora: mostra o quanto o povo se vê distante daquilo que é feito com seu dinheiro.
A cultura virou espetáculo de luxo com plateia restrita.
E o povo de Maruim, como tantos outros, segue assistindo da arquibancada da exclusão.
Se há dinheiro para a festa, tem que haver dinheiro para o povo.
Se há palco para Alok, tem que haver palco para os artistas locais.
Se há milhões para o brilho, tem que haver pelo menos dignidade para quem vive na sombra.
Porque cultura que se preze não é só som.
É justiça.
Trago Fatos , Marília Ms .
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