Enganados no espetáculo: quando a promessa vira prejuízo e o silêncio vira golpe
Em um Brasil já acostumado com promessas não cumpridas, a frustração do público sergipano diante da não realização dos shows de Vanessa da Mata e do padre Fábio de Melo em Aracaju parece, à primeira vista, apenas mais um capítulo da tragédia cíclica de eventos cancelados. Mas a irresponsabilidade da empresa Agência Kenosis Santana e Muller Ltda. vai além do cancelamento — ela simboliza o desrespeito à confiança popular, o desprezo pelo consumidor e, sobretudo, a normalização do descaso corporativo diante da Justiça.
O caso é emblemático: milhares de pessoas compraram ingressos para dois shows esperados, anunciados com pompa e promessa de noites inesquecíveis. Vanessa da Mata, símbolo da MPB contemporânea, e o padre Fábio de Melo, figura pública respeitada no meio religioso e artístico, seriam os protagonistas de eventos que nunca aconteceram. Mas o que começou com frustração emocional se tornou rapidamente um problema financeiro e legal. Porque a empresa simplesmente não devolveu o dinheiro de quem confiou nela.
Não foi por falta de tentativa de resolução amigável. O Ministério Público de Sergipe, atento à gravidade da situação, atuou como deve: ajuizou uma ação civil pública, buscou o diálogo e conseguiu, ainda em dezembro de 2024, um acordo judicial que previa a devolução integral dos valores pagos aos consumidores lesados e o pagamento de R$ 10 mil a título de dano social, como forma de compensar os prejuízos coletivos. Mas, como num enredo previsível de má-fé, a empresa ignorou completamente suas obrigações. Nem um centavo foi reembolsado. Nenhum gesto foi feito. Nenhuma responsabilidade foi assumida.
Diante disso, o MPSE pediu à Justiça a execução da sentença, em um movimento que não deveria sequer ser necessário se vivêssemos num país em que empresas levassem a Justiça a sério. É um pedido para que se cumpra aquilo que já foi determinado — porque o que está em jogo não é apenas o dinheiro de um ingresso, mas a credibilidade do sistema judicial, a segurança do consumidor e o princípio básico de justiça: quem erra, paga.
Mais grave ainda é pensar no precedente que se abre quando uma empresa como a Agência Kenosis se recusa a honrar o compromisso firmado em juízo. O que isso ensina ao mercado? Que é possível descumprir acordos judiciais impunemente? Que basta desaparecer ou empurrar com a barriga para evitar responsabilidades? Esse tipo de impunidade mina a confiança nas relações de consumo e gera desânimo cívico. Porque, no fim das contas, quem paga a conta é sempre o povo.
A decisão do Ministério Público de exigir o cumprimento da sentença e o repasse dos valores ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL) é uma tentativa de, ao menos, transformar o prejuízo em algum retorno social. Mas não basta. É preciso ir além da execução judicial: é necessário punir exemplarmente esse tipo de conduta, responsabilizar os sócios, exigir bloqueios, exigir prestação de contas públicas, e sobretudo, educar o mercado e o consumidor sobre seus direitos.
E, enquanto isso, seguem lesados os fãs, as famílias, os jovens, os devotos, os admiradores da música e da fé, que compraram não apenas um ingresso, mas uma experiência. Gente que confiou. Gente que esperava cantar, emocionar-se, encontrar no show uma pausa na dureza da vida. E recebeu, em troca, silêncio e desprezo.
A empresa que não devolve dinheiro de um show cancelado é a mesma lógica da empresa que demite sem pagar direitos, que lucra às custas da precarização, que trata o consumidor como descartável. Por isso, o caso da Agência Kenosis não é pequeno. Ele é sintoma de um país que precisa aprender a cobrar, punir e lembrar.
Porque se até os espetáculos da música e da fé viram mercadoria de má-fé, o que mais nos resta acreditar?
Trago Fatos , Marília Ms.


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