Dia das Mães: Mãe de pet é mãe ou não? Um olhar crítico sobre afeto, legitimidade e preconceito
O segundo domingo de maio é, tradicionalmente, um dia de flores, mensagens emocionadas e abraços apertados. Um dia reservado para homenagear a figura materna , aquela que gerou, criou, amou e cuidou. Mas, em tempos de redefinições sociais, afetivas e identitárias, uma pergunta que antes parecia apenas provocativa, hoje gera debates acalorados, postagens apaixonadas e até revolta nas redes sociais: mãe de pet é mãe ou não é?
Se olharmos pela lente puramente biológica, a resposta é simples, quase automática: não. Filhos, segundo a biologia, são aqueles que nascem do corpo, carregam o código genético, prolongam a árvore genealógica. Os pets, por mais queridos que sejam, são de outra espécie, pertencem a uma relação de domesticação, e não de reprodução humana. Mas será que o afeto obedece a essa lógica tão cartesiana? Será que o amor precisa de genética para ser validado?
A sociedade está em transição. Mulheres estão optando, por escolha ou circunstância, por não terem filhos humanos , e isso não diminui em nada sua capacidade de amar, cuidar e nutrir. Dentro desse contexto, muitos encontram nos animais de estimação não apenas companhia, mas um verdadeiro laço afetivo, cotidiano, visceral. Ser mãe de pet não é apenas um título simbólico; é uma forma de expressar a maternidade que transborda do instinto para o cuidado diário.
Os cães e gatos, principalmente esses dois, por estarem mais próximos da domesticação emocional dos humanos , desenvolvem vínculos afetivos profundos com seus tutores. Segundo especialistas como a psicóloga Cinthia, o sentimento de ser mãe de pet é potencializado pela dependência do animal, pela troca de carinho constante, pela responsabilidade direta sobre o bem-estar de um ser que não fala, mas sente, reage e ama. “Cães e gatos criam vínculos afetivos com seus tutores, se sentindo seguros e confiantes na presença deles, o que é comparável à relação de filhote com a mãe em termos de confiança e até mesmo apego”, explica.
Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, estudos mostram que as áreas do cérebro ativadas quando cuidamos de um animal de estimação são as mesmas que são ativadas ao cuidarmos de um filho humano. Empatia, apego, senso de responsabilidade, prazer no ato de proteger e alimentar... tudo isso está presente nas relações interespécies. O que isso significa? Que o amor, o afeto, a dedicação , pilares centrais do que chamamos maternidade , estão ali. Talvez em outra forma, talvez em outro idioma, mas inegavelmente presentes.
Então, por que tanta resistência em chamar essas mulheres de mães?
A resposta está no preconceito enraizado na nossa cultura sobre o que é ser mãe de “verdade”. Existe ainda uma romantização e sacralização da maternidade biológica como a única legítima, como se a maternidade fosse um destino fixo e inegociável da mulher. E mais: como se o útero fosse o único instrumento capaz de gerar amor e cuidado. Ser mãe, para muitos, ainda é sinônimo de parir , e qualquer coisa fora disso parece uma farsa, um exagero, um capricho de quem “não quis cumprir seu papel natural”.
Esse discurso é violento. Invisibiliza não apenas as mães de pet, mas também as mães adotivas, as madrastas que educam com amor, as avós que criam os netos, as tias que assumem papéis maternos, e até os pais solos que assumem integralmente a criação afetiva e física de seus filhos. Reduzir a maternidade a uma questão biológica é ignorar a complexidade do afeto humano e, acima de tudo, negar a diversidade das formas de amar e cuidar.
O Dia das Mães, que foi celebrado no domingo (11), precisa ser mais do que uma homenagem protocolar às mães convencionais. Ele precisa ser também um ato de reconhecimento. Reconhecimento de que o amor não tem forma única, que o cuidado não precisa de certidão de nascimento, e que a maternidade pode existir em lares onde os filhos têm quatro patas, ração especial, carteirinha de vacinação e um espaço garantido na cama durante a madrugada.
Isso não significa que devemos comparar diretamente a maternidade humana com a maternidade pet. Cada uma tem suas especificidades, seus desafios, suas dores e belezas. O ponto aqui é outro: a legitimidade do sentimento. A intensidade do vínculo. A verdade que habita o olhar de uma mulher que limpa cocô de cachorro com a mesma paciência com que uma mãe humana troca fraldas, que perde o sono por um gato doente como se fosse um filho febril, que ensina comandos básicos como quem alfabetiza, que canta músicas para acalmar, que gasta com pet shop o que muitos pais gastam com escola particular.
A maternidade é, antes de tudo, um compromisso afetivo. E se esse compromisso é honesto, se esse laço é autêntico, por que não validá-lo?
Ser mãe de pet é, sim, ser mãe , dentro de uma perspectiva mais ampla, mais afetiva, mais sensível à pluralidade da vida. Negar isso é perpetuar uma visão ultrapassada de maternidade e limitar o amor a um molde único. Em vez de julgar, talvez devêssemos aprender com essas mulheres que, mesmo sem filhos humanos, exercem o cuidado com tanta devoção que nos ensinam algo sobre maternidade todos os dias.
No fundo, a pergunta não deveria ser se mãe de pet é mãe. A pergunta certa é: por que ainda nos sentimos no direito de deslegitimar o amor dos outros?
E você, quantas formas de amor já ignorou por não caberem na sua ideia de normal?
Trago Fatos, Marília Ms.
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