Desigualdade Social: A Invisível Justiça do Brasil



A desigualdade social no Brasil não é um mero dado estatístico. Ela é uma ferida aberta, pulsante, que sangra dentro das instituições que deveriam garantir direitos, proteção e igualdade. Fingir que essa desigualdade não existe nas entranhas do Judiciário, da política, das estruturas de poder, é fechar os olhos para a mais dura e cruel realidade que cerca milhões de brasileiros.

Ivanildo, um motoboy, é um exemplo vivo dessa desigualdade institucional. Em plena pandemia, quando o mundo se recolhia e buscava proteção, ele estava nas ruas, cumprindo ordens, carregando cheques , sem saber sequer o que levava. O que para muitos poderia parecer um detalhe, para Ivanildo significava a sobrevivência de sua família, o pão na mesa. Sua vida simples e honesta, sem qualquer mancha criminal, não o poupou do julgamento impiedoso de políticos que o viram apenas como um rótulo: o do homem comum, da periferia, do trabalhador que “não deveria estar ali”.

Diferente de Virgínia, uma mulher que teve o direito de ser ouvida, Ivanildo não teve voz. Foi interrogado. Foi pressionado. Foi ameaçado para confessar algo que não entendia, em um ambiente frio e impessoal onde sua dignidade foi esquecida. Essa não é uma história isolada. É a história de um sistema que não protege quem mais precisa, que trata o pobre com suspeita, que encarcera a esperança e rasga o direito de defesa.

Enquanto Ivanildo era humilhado, Virgínia recebia pedidos para enviar fotos, selfies , um tratamento que, à primeira vista, poderia parecer trivial, mas que simboliza o diferencial de tratamento entre os que têm e os que não têm poder. O que dói profundamente é perceber que a justiça, que deveria ser o escudo mais forte para o cidadão, se torna uma arma contra aqueles que deveriam proteger.

Isso não é sobre profissão, não é sobre cargo ou título. É sobre humanidade. Sobre um Brasil que insiste em julgar pela cor da pele, pela condição social, pela simplicidade do que se é, e não pelos fatos que se comprovam. É um Brasil onde o pobre é sempre culpado até que prove inocência , e, muitas vezes, não tem sequer chance de provar.

Essa dinâmica cruel também está presente no caso Francenildo, que marcou a história política do país. Francenildo, um caseiro humilde, levantou a voz contra o poder e as estruturas de corrupção ao testemunhar contra o então ministro Palocci, acusando-o de envolvimento em casas de lobby. Em retaliação, seu sigilo bancário foi quebrado ilegalmente, expondo-o publicamente e demonstrando claramente a vulnerabilidade de quem está nas camadas mais baixas da sociedade. Apesar do escândalo que levou à queda do ministro, Francenildo não foi poupado. Ele foi jogado ao vento como um exemplo do quanto o sistema falha em proteger quem enfrenta o poder.

Enquanto para alguns a renúncia de Palocci seria a prova de que o sistema funcionou, a verdade é que ele só mostrou o quanto essa “justiça” é desigual. Um homem cai, mas muitos outros como Francenildo e Ivanildo continuam esmagados, invisíveis, sem voz, à mercê de um sistema que não os protege , e às vezes, os condena antecipadamente.

Essa desigualdade institucional é um reflexo de um Brasil que ainda não se libertou das amarras do preconceito social e racial, de um país onde o direito é privilégio de poucos e a justiça, uma moeda que oscila conforme o bolso e o status. Até quando vamos fingir que as instituições são neutras? Até quando aceitaremos que a “igualdade perante a lei” seja apenas uma frase vazia e distante da realidade dos trabalhadores, dos pobres, dos marginalizados?

Para que a justiça seja realmente justa, para que o Brasil possa caminhar em direção a um futuro mais humano, é preciso reconhecer essas desigualdades enraizadas, desmascarar o preconceito institucional e lutar para que todo cidadão, independentemente da sua condição, tenha direito a voz, respeito e proteção.

Porque não é sobre profissão.

É sobre dignidade.

É sobre a humanidade que insistimos em negar a tantos brasileiros.

Trago Fatos , Marília Ms .


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