Descartáveis: O amor condicionado ao vigor feminino e a covardia normalizada dos homens

Imagina você estar casada. Dividir casa, cama, tempo, planos, abrir mão da sua carreira para cuidar dos filhos, da casa, do bem-estar de um homem que prometeu ser seu parceiro, mas que, silenciosamente, começa a desaparecer dentro da relação. Imagina que, um dia, esse homem vai embora , não fisicamente, mas emocionalmente. Ele para de conversar, para de olhar, para de se importar. A presença dele é apenas um corpo. O resto já partiu.

Imagina que você tem um filho com ele. Um filho que você pensou ser o fruto de uma história de amor, mas que virou mais um fardo que você carrega sozinha. Porque ele não ajuda com nada. Não paga escola, não compra fraldas, não dá colo, não participa das decisões. Você tem que ser mãe, pai, profissional, enfermeira, pedagoga, cozinheira, psicóloga. Tudo sozinha. E ninguém te aplaude por isso.

Imagina ser traída, ser agredida, ser diminuída. Imagina viver uma vida em que o outro decide que seus sonhos valem menos que os dele. Em que você é quem tem que ceder, calar, cuidar, engolir o choro e sorrir no café da manhã.

Esse não é um conto de terror , é o dia a dia de milhões de mulheres.

Essa é a regra, não a exceção. Porque enquanto alguns poucos homens são parceiros de verdade, a imensa maioria ainda acredita que ter uma mulher ao lado é como ter uma extensão da própria vida: alguém para servi-lo, exaltá-lo e se anular por ele. E o pior: muitos acreditam que é normal, que é justo, que é natural.

Quantas mulheres você conhece que foram deixadas com filhos pequenos?
Quantas abandonaram sua carreira para sustentar a casa com cuidado e amor, enquanto o homem usava seu tempo livre para trair, beber ou simplesmente não se importar?
Quantas apanham em silêncio?
Quantas escutam frases cruéis sobre suas rugas, suas marcas, seus corpos cansados de tanto doar e pouco receber?

A mulher como objeto com data de validade

A mulher, na sociedade patriarcal, ainda é tratada como uma mercadoria. E como toda mercadoria, ela tem prazo de validade. Beleza, juventude e vigor. Essas são as moedas femininas em um mercado afetivo absolutamente desonesto.

A mulher que sustenta o lar, que cria os filhos, que envelhece ao lado do parceiro, não é celebrada. Ela é descartada. Como uma latinha de refrigerante vazia. Quando não serve mais para ser exibida na roda de amigos ou desejada sexualmente, ela perde o valor. Porque o amor, para muitos homens, tem preço , e o preço é a aparência.

"Ninguém gosta de velha", ouviu-se. E ninguém se chocou.

A mulher que serviu de escada pro sucesso do homem é trocada por uma com 20 anos a menos. Porque agora que ele chegou no topo, ele quer alguém que o faça se sentir jovem de novo. Não importa o que ele construiu com aquela mulher. Não importa o quanto ela sacrificou por ele. Ela já não tem "vigor". Logo, não serve mais.

É assim que a cultura do descarte funciona. É assim que o machismo opera: usando as mulheres até o último gole de sua energia, e depois jogando fora como se elas fossem latas.

E quem fala disso é chamada de amarga, de louca, de ressentida.

Mas não é loucura, não é drama. É verdade. E enquanto os homens não olharem pra si e se colocarem como parte do problema, nada muda.

Se você, homem, se sentiu ofendido com esse texto, talvez não seja a exceção como pensa. Porque quem é exceção não se sente atingido. Quem é exceção escuta, acolhe e entende que o mundo está cheio de homens omissos, abusivos, covardes , e que o seu papel não é se defender, mas se diferenciar com ações e não com discursos vazios.

Conclusão: o amor não é a ausência de dor , é a recusa de infligi-la.

A mulher não quer um salvador, um príncipe, um herói. Ela quer um parceiro. Alguém que esteja presente, que compartilhe o fardo, que a valorize além do corpo jovem e bonito. Alguém que continue ao lado quando ela envelhecer, que ache beleza nas marcas que o tempo deixou, que lembre de tudo que ela fez quando ninguém mais via.

Porque o verdadeiro amor não se baseia em juventude, mas em caráter.

E caráter, infelizmente, não está em abundância no mercado.

Trago Fatos, Marília Ms.

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