Crônica de um absurdo: o animal que troca sono por cafeína e ciência por gominha




Você sabia que o ser humano é o único animal que troca sono? Não por sobrevivência. Não por algum instinto de caça, proteção ou ameaça. Mas para se cravar, às três da manhã, misturando um super café numa xícara com mixer ,num mundo que ainda tem colheres. É isso. O Homo sapiens, que inventou o foguete, a internet e o emoji do cocô sorridente, também é aquele que abriu mão do sono , esse recurso natural essencial à manutenção da vida , para terminar uma planilha, ver mais um episódio ou simplesmente pensar nas piores decisões da vida enquanto o café arde no estômago vazio.

Não há outro animal que troque instinto por produtividade. Nenhum lobo dorme menos para atingir metas trimestrais. Nenhum gato abre mão da soneca para responder e-mails às 2h da madrugada. O humano é o único capaz de sacrificar o corpo em nome de uma construção simbólica e doente chamada “sucesso”.

Mas a lista de exclusividades não para aí. Somos também os únicos animais capazes de contabilizar com quantos chuchus se anula um pedaço de chocolate. É isso mesmo. Transformamos a alimentação, uma atividade essencial e instintiva, numa equação moral. Comemos culpa junto com brigadeiro, fazemos as pazes com a consciência com brócolis. Medimos nosso valor pelo número de calorias ingeridas, como se a dignidade coubesse numa tabela nutricional.

No reino das frutas, seguimos nos superando. Enquanto laranjas e tangerinas abundam em mercados e quintais, nós preferimos pagar caro em gominhas de vitamina C, embaladas em plástico, com sabor artificial e toque de nostalgia farmacêutica. Nos vendem o que já temos de graça , com um design bonitinho. E a gente compra. E repete. Porque a praticidade da ilusão parece mais convincente que a simplicidade da realidade.

E falando em gominha , ou melhor, em como mascar verdades , somos também os únicos animais que só acreditam na ciência quando ela concorda com nossas crenças. Quando não, passamos a repetir mantras como “isso é coisa da grande mídia”, “agenda globalista”, “comprado pelo sistema”. A ciência, para o humano moderno, virou mais uma entidade ideológica: ou ela reforça meu ponto de vista ou é conspiração. A razão virou artigo de fé ,e fé, ironicamente, virou justificativa para ignorar a razão.

Tudo isso nos faz crer que talvez sejamos os únicos animais caminhando rumo a um destino ridículo e trágico: a criação do chocolate frutíco. Uma aberração doce que simboliza perfeitamente nosso tempo , um produto que parece saudável, mas é apenas chocolate com nome de fruta. Uma solução falsa para um problema inexistente. Uma tentativa de unir culpa e prazer num só pacote açucarado. Um retrato de como nos recusamos a lidar com complexidade, buscando atalhos e sabores que nos enganem com aparência de bem-estar.

O mais cômico , e triste , é que somos também os únicos animais que riem disso tudo. E ao rir, pouco fazemos para mudar. É como se a consciência da loucura nos bastasse. Acordamos cansados, trocamos o sono por performance, a fruta por cápsulas, o conhecimento por algoritmos e, no fim, a sanidade por um pouco mais de dopamina. Tudo embalado por discursos coach, promessas de longevidade e gominhas mastigáveis.

O humano é, sem dúvida, uma criatura extraordinária. Capaz de construir pontes, salvar espécies, escrever livros e enviar robôs a Marte. Mas também é aquele que acredita que tomar café com óleo de coco às 3h da manhã o torna imbatível, mesmo que o corpo esteja implorando por descanso. O mesmo animal que decide o que comer com base em posts de influencers nutricionistas de 19 anos.

E se rir é o melhor remédio, que seja com responsabilidade , porque, no ritmo em que vamos, a piada pode nos engolir.

Acordados, ansiosos, inflamados e incongruentes, seguimos misturando café com café, vitamina com fantasia, chocolate com culpa, e ciência com crença. Talvez o próximo passo seja mesmo o chocolate frutíco. E, se for, que venha com gosto de alerta. Porque o futuro, esse que estamos insistentemente tentando desenhar com gominha, pode vir com gosto amargo. E sem colher.

Trago Fatos , Marília Ms.

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