CPI do Tigrinho: A comédia pastelão que esconde a tragédia dos pobres




A sensação que a atual CPI dos jogos de aposta no Brasil transmite é a de um grupo de amigos brincando com um assunto que, na verdade, carrega o peso de uma tragédia social. Risos, tropeços no microfone, trocadilhos e memes , tudo parece encenado num episódio de The Office, mas o roteiro é real, e o final é trágico para milhares de brasileiros. Enquanto figuras como Virgínia Fonseca tentam justificar contratos milionários com empresas de apostas, quem paga o preço é o jovem da periferia, a mulher endividada, o pai de família que perdeu tudo, e o adolescente em crise silenciosa.

Essa CPI não deveria ser um palco. Deveria ser um espelho.

O que se perde nessa “comédia institucional” é o que realmente importa: o vício em jogo de azar , ou, como a Organização Mundial da Saúde classifica, ludomania , é um transtorno mental sério, cujos sintomas são similares aos de outras dependências, como drogas ou álcool. A diferença? A droga promete uma sensação imediata e, de certa forma, entrega. O jogo, muitas vezes, só promete. E faz isso com uma estética colorida, sons de vitória, promessas de enriquecimento instantâneo, e a cumplicidade de quem já é rico.

O jogo não rouba só o dinheiro. Ele rouba tempo, esperança, laços familiares, estabilidade emocional e dignidade. Aumenta conflitos domésticos, empurra pessoas para o isolamento, e muitas vezes serve como gatilho para o suicídio. E quem mais sofre não são os empresários, os influencers, ou os parlamentares risonhos , são os pobres. São as famílias que trocam o arroz do mês por mais uma tentativa no “tigrinho”.

Entre 2018 e 2023, período em que o marketing desses jogos explodiu, os atendimentos a viciados em jogos de azar cresceram 1.094% no Brasil. Sim: mais de mil por cento. Não é coincidência. É projeto. Um projeto bilionário montado sobre a vulnerabilidade emocional de quem não tem. O vício comprometeu a renda de 63% dos apostadores. 23% deixaram de comprar roupas. 19% reduziram o gasto com alimentação. O básico foi deixado de lado por um sonho falso , o da vitória fácil, promovida por influencers que vivem em mansões enquanto seus seguidores não têm o que comer.

E quando falamos de influência, é preciso dizer: não é mais aceitável fingir que “não sabia”. Virgínia, você sabia. Ou escolheu não saber. E isso é pior. Porque o dinheiro que você recebeu veio de tragédias reais. Veio de boletos atrasados, de filhos chorando com fome, de noites sem sono. Veio de vícios alimentados por pessoas como você, que têm o poder de alcançar milhões, mas escolheram promover um cassino digital disfarçado de brincadeira.

O formato vertical desses aplicativos não é acaso. É estratégia. O computador é luxo. O celular é a janela da classe C, D e E. Eles não apostam em Las Vegas, mas na palma da mão. E o algoritmo sabe disso. Por isso, os jogos se adaptaram. Por isso, os contratos de divulgação escolhem a dedo influencers com público majoritariamente pobre. O sistema é feito para parecer um prêmio, mas funciona como uma armadilha.

Querem que você ache que o problema é só do viciado. Mas como culpar alguém quando todo o sistema foi feito para seduzir?

O que deveria estar em discussão não é se uma influencer sabia ou não. É por que isso tudo foi permitido. É por que a Anatel, a Receita, o Ministério da Justiça e a Câmara demoraram tanto. É por que, até agora, não existe uma regulamentação decente. E por que, ao invés de escutar especialistas, psicólogos, sociólogos e vítimas, a CPI chama figuras públicas para rir no microfone, tirar foto com deputado e fingir que isso tudo é uma questão de publicidade mal pensada.

Não é.

É saúde pública.

É tragédia coletiva.

É responsabilidade de quem divulga, de quem financia, de quem se omite, e de quem deveria proteger , e não protege.

Há 25 anos, a propaganda de cigarro foi banida. Resultado: o consumo caiu 40%. O marketing funciona. E a repressão também. Agora é hora de fazer o mesmo com os jogos de azar disfarçados. Porque hoje, cada Pix feito por um influenciador como esse é pago com o sangue das vítimas.

Você, consumidor de conteúdo, tem um papel crucial. Divulgue vídeos que denunciam. Engaje debates sérios. Questione seu influenciador preferido. Faça do contrato com casa de aposta um risco , e não um prêmio. Só assim a mudança virá de fato.

E talvez, um dia, os risos dêem lugar ao respeito.
E os palcos da CPI passem a servir às vítimas, não aos vilões.

Trago  Fatos , Marília Ms.

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