Continuidade ou estagnação? Uma análise crítica sobre a posse do novo ministro das Comunicações, Frederico Siqueira
Na cerimônia de posse que oficializou Frederico Siqueira como novo ministro das Comunicações, o discurso de continuidade soou como música suave aos ouvidos de uma equipe técnica acostumada a sobreviver às intempéries políticas. “A princípio a gente vai manter todo o time”, declarou o ministro, em tom conciliador e pragmático, dando o tom do que parece ser uma gestão de transição, não de ruptura. Mas até que ponto a permanência de quadros, métodos e metas representa estabilidade? E até onde isso pode significar estagnação diante de um setor que clama por avanços urgentes e transformações estruturais?
É preciso lembrar que o Ministério das Comunicações tem, historicamente, sido um terreno de disputa política e econômica. Em meio a interesses de operadoras de telecomunicações, setores da radiodifusão, do jornalismo, da inclusão digital e da soberania nacional em redes estratégicas, a pasta é menos um palco técnico e mais um tabuleiro de xadrez onde movimentos milimetricamente calculados determinam o futuro da informação no país. Assim, quando Siqueira afirma que não promoverá grandes mudanças, é inevitável a pergunta: ele está assegurando a governabilidade ou perpetuando uma lógica de gestão que pouco responde às demandas reais da população?
O Brasil é um país ainda profundamente desigual no acesso à internet de qualidade. Os dados sobre a conectividade nas zonas rurais, comunidades periféricas e escolas públicas evidenciam uma tragédia silenciosa: milhares de brasileiros estão à margem do direito à informação e à comunicação. Nesse cenário, esperar que a continuidade seja a melhor estratégia é, no mínimo, controverso. Afinal, se o trabalho da gestão anterior fosse efetivamente eficaz, não estaríamos enfrentando tamanha exclusão digital.
A permanência de André Leandro Magalhães na direção de operações da Telebras é outro ponto que chama atenção. Sua experiência no setor é indiscutível, mas a Telebras, por si só, é uma empresa que vive sob constante questionamento quanto à sua eficiência, capacidade de execução e relevância no contexto atual. Criada com a missão de democratizar o acesso à internet e reforçar a infraestrutura de telecomunicações no Brasil, ela tem sido, frequentemente, alvo de críticas por sua baixa execução orçamentária, lentidão nos projetos e por não conseguir disputar protagonismo no setor. Manter os mesmos gestores, nesse contexto, pode representar mais um aceno à estabilidade do que à inovação.
A fala de Siqueira sobre “acelerar aquilo que já vem sendo feito” também precisa ser esmiuçada. O que exatamente vem sendo feito? A digitalização de serviços públicos? A expansão da banda larga por meio do Wi-Fi Brasil? A regulação das grandes plataformas digitais? São frentes legítimas, mas que demandam urgência, ousadia e um posicionamento firme diante dos gigantes da tecnologia e da mídia. Não se trata apenas de manter engrenagens girando, mas de reprogramar a máquina com vistas a um país mais justo e conectado.
Há ainda um silêncio preocupante em relação à regulação das plataformas digitais e à comunicação pública. Em tempos de desinformação desenfreada, ataques à imprensa e uso político das redes, o Ministério das Comunicações não pode se omitir. É urgente um plano nacional de alfabetização midiática, de combate às fake news e de fortalecimento da comunicação pública. Manter o que está, nesse caso, é manter também uma omissão que custa caro à democracia.
Por fim, a posse de Siqueira é simbólica também por sua discrição. Em tempos onde a política é cada vez mais performática, o novo ministro opta por um perfil técnico e reservado. Isso pode ser um trunfo ou uma fraqueza. A técnica, por si só, não é neutra. As escolhas da equipe, dos contratos, das prioridades orçamentárias e das estratégias de expansão digital revelam posicionamentos ideológicos e interesses de grupos específicos.
Frederico Siqueira assume uma pasta fundamental, mas sua fala inaugural deixa mais perguntas do que respostas. A permanência do time e o discurso de continuidade soam como uma tentativa de passar despercebido em um governo marcado por tensões políticas, cortes orçamentários e desafios comunicacionais gigantescos. Mas num país que ainda convive com escolas sem internet, com regiões inteiras desconectadas, e com a crescente concentração de poder nas mãos de poucos conglomerados digitais, o tempo da neutralidade acabou.
O Brasil precisa, mais do que nunca, de um Ministério das Comunicações ativo, corajoso e comprometido com o povo, e não apenas com a manutenção do status .
Trago Fatos , Marília Ms.
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