Combustível adulterado, combate armado: a importância do espectrofotômetro na nova era da fiscalização sergipana



Pela primeira vez em Sergipe, um novo capítulo se inicia na luta contra os crimes de adulteração de combustíveis. A introdução do espectrofotômetro nas fiscalizações representa mais do que a chegada de um equipamento: simboliza o início de um processo de modernização e de combate mais incisivo à corrupção estrutural que historicamente contamina os postos de combustíveis e o bolso do consumidor. A tecnologia, que permite identificar alterações na composição do combustível sem a necessidade de envio de amostras para análise laboratorial, é um marco para o estado , e um incômodo para quem lucra na ilegalidade.

A fiscalização, que passou a ocorrer de forma integrada na Grande Aracaju, une órgãos como a Polícia Civil, o Procon, a Secretaria da Fazenda, o Ipem e até o Ministério Público, configurando uma ofensiva estatal em um território que há muito tempo é dominado pela informalidade, pela impunidade e por um jogo de empurra institucional. Por décadas, o consumidor sergipano abasteceu seu veículo na incerteza , sem saber se o combustível era realmente o que o rótulo prometia ou se seu motor viraria vítima de uma fraude invisível. Agora, com o espectrofotômetro em mãos, essa dúvida pode começar a se dissipar.

Mas o que esse aparelho realmente faz? O espectrofotômetro utiliza feixes de luz para analisar a composição química do combustível. Ele detecta, por exemplo, se a gasolina contém solventes ilegais, se o etanol está misturado com água além do permitido ou se o diesel possui impurezas que comprometem sua qualidade. E o melhor: faz isso em tempo real, diretamente no posto. Ou seja, reduz o tempo de resposta do Estado e impede que provas sejam manipuladas ou que estabelecimentos escapem da responsabilização por conta da morosidade dos trâmites tradicionais.

Esse avanço é crucial em um cenário onde a adulteração de combustíveis não é apenas uma infração administrativa, mas uma verdadeira cadeia criminosa. Envolve desde a falsificação de notas fiscais até a associação com distribuidoras clandestinas, e em muitos casos, a lavagem de dinheiro e o financiamento de atividades ilegais. Trata-se de um problema que ultrapassa os limites da economia, comprometendo também a segurança, a saúde pública e o meio ambiente.

A fiscalização integrada, com apoio policial, é necessária justamente porque os interesses que orbitam o mercado dos combustíveis são poderosos, escorregadios e violentos. Fiscal entrar em posto de gasolina é quase como mexer com cartel. A presença ostensiva da Polícia Civil não é decorativa , é uma proteção contra retaliações, ameaças e o possível envolvimento de agentes corruptos infiltrados no próprio sistema.

Entretanto, apesar do avanço que representa o uso do espectrofotômetro, é necessário fazer uma crítica contundente: por que só agora? Por que, em 2025, é que Sergipe passa a usar um equipamento que já é realidade há anos em estados como São Paulo e Minas Gerais? O atraso na adoção dessa tecnologia reflete o descaso histórico com o direito do consumidor nordestino e evidencia como a inovação chega a passos lentos quando se trata de beneficiar as camadas mais vulneráveis da população. É inadmissível que, em pleno século XXI, o cidadão ainda precise de sorte para não cair em uma bomba fraudada.

Outro ponto crucial é garantir que essa fiscalização não seja apenas pontual ou midiática. Não pode virar manchete de um dia só. É preciso que o uso do espectrofotômetro seja sistemático, permanente, e que a sua aplicação ocorra em todos os municípios, e não apenas na Grande Aracaju. O interior também sofre com combustíveis adulterados e, muitas vezes, é onde ocorrem os casos mais graves, justamente pela sensação de impunidade e ausência de fiscalização.

Além disso, os resultados precisam ser transparentes. O consumidor tem o direito de saber quais postos foram autuados, quais tiveram irregularidades, e se há reincidência. É inadmissível que se esconda essas informações sob o manto da “proteção da imagem” de empresas que, ao adulterarem combustíveis, cometem um crime contra a sociedade.

Por fim, a chegada do espectrofotômetro deve ser celebrada, mas também vista como o mínimo. A população espera mais. Espera que as bombas não sejam mais sinônimos de engano, que abastecer o carro não signifique correr o risco de perder o motor ou financiar o crime. Espera que o Estado não apenas use tecnologia, mas também exerça vigilância, aplique penalidades e devolva ao cidadão o direito básico de confiar no serviço que paga.

Sergipe está diante de uma chance histórica de se tornar referência no combate à adulteração de combustíveis. Mas, para isso, não basta apenas comprar aparelhos caros. É preciso garantir que esses aparelhos estejam a serviço da justiça , e não apenas das manchetes.

Trago Fatos , Marília Ms.

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