Coisas que eu era muito nova pra entender, e agora eu vejo com clareza brutal

Quando somos mais novos, crescemos com a promessa de um mundo justo. Acreditamos que quem planta o bem, colhe o bem. Que a justiça divina, cósmica ou social vai dar conta dos erros e premiar as virtudes. Mas o tempo, ah, o tempo tem um jeito cruel de esfregar na nossa cara aquilo que ninguém queria dizer em voz alta: gente ruim se dá bem sim. E com muita frequência.

Aliás, ouso dizer que, com a experiência que tenho hoje, vejo muito mais gente ruim com vidas confortáveis, influentes, bem resolvidas e sorrindo em frente a casas de praia, do que pessoas boas sendo recompensadas pela honestidade, pela ética ou pela generosidade. E não, a vida não vai cobrar dessas pessoas. Não do jeito que a gente espera. Não com uma grande reviravolta, uma punição divina ou uma conta que chega no final. Na maioria das vezes, essa conta nem chega. E se chegar, é com desconto.

Isso não é pessimismo, é realidade nua. Uma realidade que eu era nova demais pra entender.

A gente aprende que “se você for do bem, tudo vai dar certo”. Só que a vida é um pouco mais parecida com um jogo de sobrevivência do que com uma linha reta. E nesse jogo, quem joga sujo, trapaceia, manipula, mente e puxa o tapete às vezes vence , porque o sistema é permissivo. Porque muitas vezes, quem deveria colocar limite também lucra com isso. O problema não é só que gente ruim existe. É que muitas delas têm estratégia, frieza e ausência de culpa. E isso, num mundo competitivo, é quase uma vantagem.

Demorei pra perceber também que sim, tem gente que quer te derrubar. E não é paranoia. Não é vitimismo. É constatação. Quando você vem de baixo, quando você é minoria em algum aspecto, quando você ocupa um espaço que tradicionalmente não é pra “gente como você”, você vira ameaça. E nessa hora, não importa o quanto você seja bom, gentil ou esforçado: vão tentar puxar o seu tapete.

No ensino médio estudando em uma escola de elite , eu senti isso com força. Eu achava que era exagero quando alguém dizia que o ambiente acadêmico podia ser hostil. Mas bastou eu conquistar uma nota acima da média, me destacar num projeto, ter uma ideia fora da curva , bastou um elogio público de um professor , para perceber olhares que antes eram neutros se tornarem frios. De colegas que sorriam pra mim, mas torciam pra eu tropeçar. Não é que todo mundo é assim. Mas o suficiente é. E dói.

Um professor de sociologia  meu costumava dizer: “A vida tende à média.” Nunca entendi o que ele queria dizer com isso até viver altos e baixos o suficiente pra perceber o padrão. Quando tudo vai muito bem, prepare-se: vem pedrada. E quando tudo está desmoronando, alguma melhora vem. A gente oscila. A vida oscila. E isso não é castigo, é dinâmica. Nenhuma linha reta é natural. A gente sobe, desce, aprende, desaprende, tropeça, se reconstrói.

Outra coisa que eu dizia com convicção , e hoje, com um pouco de vergonha , era: “Escolha um curso que você ama! Viva do que você ama!” Quase como um coach da romantização do sofrimento. E olha, em um mundo ideal, isso estaria certo. Mas não estamos num mundo ideal. Estamos num país profundamente desigual, onde sobreviver já é um ato de resistência. E viver do que se ama, muitas vezes, é um privilégio inacessível pra maioria.

A verdade é que, se você ama teatro, moda, música, arte, e quer viver disso , você pode tentar, sim. Mas não pode ignorar que talvez precise equilibrar esse sonho com algo que pague seus boletos. Com algo que te dê estabilidade. Com algo que funcione enquanto o que você ama ainda não virou fonte de renda. Faça o que ama, mas não só o que ama. Equilíbrio. Lucidez. Responsabilidade com você mesmo.

E por fim, algo que sempre vai gerar polêmica: universidade não garante futuro. Mas ainda é, em muitos casos, o caminho mais seguro pra quem quer melhorar de vida. Não porque ela por si só transforma tudo, mas porque ela te insere em lugares de debate, te conecta com oportunidades, te tira de bolhas. E mesmo com todas as dificuldades, e elas são muitas, principalmente pra quem vem da periferia, do interior, da escola pública , a universidade ainda é, pra muita gente, o único canal possível de mobilidade social real.

Mas não se iluda: só entrar na universidade não basta. O sistema é injusto também dentro dela. Vai te exigir o triplo se você for mulher, negro, pobre, LGBTQIA+. Vai tentar te sabotar em silêncio. Vai fazer você duvidar se pertence ali. Mas insista. Porque mesmo não sendo garantia, ainda é uma chance.

Hoje eu entendo tudo isso com mais clareza. E entendo também que crescer não é só sobre amadurecer ideias bonitas. É sobre encarar verdades feias. É sobre abrir mão de certas ilusões pra viver com mais consciência. Porque só assim dá pra construir alguma coisa de verdade: com os pés no chão e os olhos bem abertos.

E se tem uma coisa que eu sigo acreditando, mesmo depois de ver tudo isso, é que continuar sendo uma pessoa boa vale a pena. Não porque vai garantir sucesso ou justiça divina. Mas porque é uma escolha de integridade. E mesmo que o mundo premie mais os lobos, eu ainda prefiro dormir em paz. Mesmo que seja num quarto pequeno, mas com a consciência tranquila.

Isso, sim, é liberdade.

Trago Fatos, Marília Ms.

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