“Carrot cake”: quando a vergonha não é só alheia, é cultural




Estou me escondendo. Com vergonha. Não por mim, mas por ela, por nós. Pela vergonha alheia, coletiva, nacional. A moça só queria um pedaço de bolo de cenoura. Aquele com cobertura de chocolate que derrete, que a gente come ainda quente, que lembra casa de vó, padaria de bairro, infância e conforto. Um pedaço de doçura simples num mundo que cobra caro por tudo. Mas não foi isso que ela ganhou.

— Quero um bolo de cenoura, por favor.
— Bolo de cenoura? Ah, você quer um carrot cake?

Carrot cake.
Repita comigo: carrot cake.

Dá pra levar a sério? Dá pra suportar esse tipo de colonização afetiva, estética, linguística, que transforma o que é nosso em produto gourmetizado, importado, pasteurizado?

Não, não é só um nome. É sobre o que está por trás do nome. É sobre um Brasil que tem vergonha de ser Brasil. Que recusa o que é simples, popular, acessível , e tenta embrulhar tudo em papel importado. Que disfarça o “bolo de cenoura” com palavras em inglês pra cobrar mais caro, pra parecer mais sofisticado, pra performar um pertencimento que não é real. O carrot cake da padaria não é melhor. É o mesmo bolo , e às vezes até pior , só que com uma etiqueta de estrangeirização que nos faz sentir que estamos comprando “algo a mais”.

Essa moça não é uma exceção. Ela é o retrato de um país que aprendeu a desprezar suas raízes. Que acha “cafona” a pamonha, mas elogia o “corn cream” servido em taça. Que torce o nariz para a tapioca com coco queimado e leite condensado, mas paga 38 reais num tapioca delight com chia, blueberry e toque de sal rosa do Himalaia.

O Brasil vive uma síndrome de vira-lata gourmet. E isso não é engraçado , é triste. Porque o carrot cake não é só o nome em inglês. É o que ele representa: a substituição da identidade pela performance. A negação do popular pelo verniz da elite. A tentativa patética de parecer gringo num país que nunca valorizou seus próprios sabores, sons, cheiros, línguas e corpos.

A vergonha da moça não está no pedido. Está na necessidade de se esconder atrás do inglês pra ser ouvida, aceita, validada. E isso é sintomático. Quem é que foi educado a achar que o que vem de fora é melhor? Que bolo de cenoura é coisa de pobre, mas carrot cake é “diferenciado”? Que nome gringo justifica subir o preço, e o nosso nome só atrasa?

É o mesmo movimento que transforma feijoada em Brazilian stew, acarajé em spicy bean fritter, e Baião de Dois em rice and beans with cheese num cardápio em Nova York. Quando exportamos o que temos de melhor, a tradução mata a alma. E quando importamos o que é alheio, esquecemos que já temos o suficiente , e com mais sabor.

Na padaria, a moça foi corrigida com desprezo. Quase escorraçada por não saber que o que ela via na vitrine , aquele bolo laranja com cobertura de chocolate , agora tinha mudado de nome. Como se a língua portuguesa fosse menor. Como se o paladar brasileiro tivesse que pedir desculpas por existir.

Mas eu me pergunto: até quando? Até quando vamos continuar achando que o Brasil precisa ser legendado? Que nossas palavras não bastam? Que nossos sabores só são dignos se ganharem um toque estrangeiro?

O capitalismo fez do idioma uma mercadoria. E a elite brasileira, tão carente de autoestima nacional, comprou esse pacote. Mas o povo? O povo ainda chama bolo de cenoura de bolo de cenoura. E ele ainda tem gosto de lar, de memória, de abraço. Sem precisar de tradução.

Então, se você vir um carrot cake na vitrine da padaria, não se assuste. Olhe com compaixão. É só um bolo de cenoura travestido de insegurança cultural. E talvez, se todo mundo continuar pedindo do jeitinho que aprendeu com a avó, a vergonha mude de lado.

Porque o que envergonha mesmo não é chamar de bolo de cenoura.
O que envergonha é chamar de carrot cake e achar que isso nos faz melhores.

Trago Fatos , Marília Ms. 

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