Aracaju sob nova direção, velhas práticas: cargos comissionados, terceirizações milionárias e o descaso com o servidor público


A nova gestão da Prefeitura de Aracaju, sob o comando da prefeita Emília Corrêa (PL), mal completou quatro meses e já escancara uma velha ferida da política brasileira: o inchaço da máquina pública por meio de cargos comissionados, aliados políticos e contratos milionários com empresas de fora, tudo enquanto os servidores concursados, os pilares reais da administração pública, seguem invisibilizados e com salários congelados.

De acordo com dados oficiais do Portal da Transparência, em dezembro do ano passado a prefeitura possuía 2.398 cargos em comissão. Agora, o número já ultrapassa os 2.894. Um aumento de quase 500 cargos em apenas quatro meses. E não se trata de cargos técnicos ou estratégicos — são nomeações políticas, muitas vezes desnecessárias, com salários generosos, bancados pelo dinheiro público que deveria estar a serviço da população.

Apenas com cargos comissionados, a prefeitura já gastou R$ 46 milhões no quadrimestre. Em abril, foram mais de R$ 12,8 milhões. Para onde está indo esse dinheiro? Quem está ocupando essas vagas? Quais os critérios técnicos para as nomeações? As respostas, como sempre, se perdem em meio a justificativas administrativas e discursos genéricos de "valorização da gestão".

Enquanto isso, o que se vê nos bastidores é um governo que usa a estrutura pública para pagar favores políticos, acomodar aliados e montar um aparato de controle institucional às custas do contribuinte. Tudo isso em uma cidade onde a educação básica sofre com a falta de recursos, as unidades de saúde estão sucateadas e a infraestrutura dos bairros periféricos é esquecida.

Não bastasse a farra dos CCs, outro dado escandaloso foi revelado pelo Sindipema (Sindicato dos Profissionais do Ensino do Município de Aracaju): a contratação, por dispensa emergencial de licitação, de uma empresa de Fortaleza (CE) por R$ 69,5 milhões para fornecimento de mão de obra destinada às escolas públicas da capital. Estão previstos 1.438 cuidadores, intérpretes de Libras, instrutores e supervisores.

É curioso — ou trágico — que, em vez de promover concursos públicos e valorizar os profissionais sergipanos, a Prefeitura opte por importar uma empresa cearense com um contrato milionário. Emergencial, dizem. Mas a emergência aqui é sempre conveniente para evitar licitações, apressar contratações e facilitar interesses. Emergencial para quem?

A justificativa da prefeitura é que parte dos valores pagos em CCs se referem a indenizações relativas a exercícios anteriores e que os salários brutos de R$ 36 mil (vistos no Portal da Transparência em cinco cargos da Secretaria da Defesa Social e da Cidadania) são, na verdade, remunerações de dois meses acumuladas numa única folha.

Ora, ainda que seja verdade, isso não explica a escalada exponencial dos valores pagos, nem apaga o fato de que a máquina pública está sendo instrumentalizada como cabide de emprego em pleno século XXI, em uma capital que ainda luta contra desigualdade social e baixa qualidade nos serviços essenciais.

Enquanto os professores lutam por reajustes que sequer acompanham a inflação, enquanto servidores concursados enfrentam sobrecarga de trabalho e salários congelados há anos, a nova gestão prioriza a montagem de uma base aliada. Não nos gabinetes, mas nos contracheques.

O retrato é claro: a Prefeitura de Aracaju virou um balcão de negócios.

Negócios com cargos, com empresas terceirizadas, com contratos emergenciais. A velha política do “quem indica” se renova sob o manto da “eficiência administrativa”. Mas a população sente o contrário: escolas desassistidas, servidores desmotivados, falta de transparência real e a certeza de que quem paga a conta são sempre os mesmos.

O povo de Aracaju não quer mais desculpas técnicas nem notas de esclarecimento redigidas para confundir. Quer clareza, honestidade e, acima de tudo, respeito com o dinheiro público. Porque enquanto a prefeita distribui cargos e contratos, quem está na ponta , nas salas de aula, nas unidades de saúde, nas ruas , continua recebendo migalhas.

O que Emília Corrêa está fazendo em Aracaju não é gestão. É ocupação. Política. E perigosa.

Trago fatos , Marília Ms.

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