Apologia ao Crime: O Crime Institucionalizado no Brasil
A pergunta, feita por Roberto Cabrini, um dos maiores jornalistas investigativos do Brasil, é incisiva e direta: "Você faz apologia ao crime?" E a resposta, dada por Oruam, filho de Márcio VP, é profunda e reveladora. A apologia ao crime não se resume ao incentivo explícito ou ao aplauso a atos criminosos, mas se desenha em um cenário muito mais complexo, onde o Estado e a sociedade, por ação ou omissão, perpetuam e alimentam uma realidade onde o crime é a única alternativa para muitos.
O que é apologia ao crime?
Apologia ao crime é, para mim, um conjunto de ações e escolhas que normalizam, aceitam ou, pior, incentivam a perpetuação de um sistema onde o crime não é apenas uma exceção, mas uma consequência de uma estrutura desigual e injusta. Apologia ao crime é quando um governo decide cortar investimentos em educação, saúde, e infraestrutura, e em seu lugar coloca uma força policial militarizada, armada até os dentes, invadindo morros e periferias, atirando e perpetuando a violência.
Apologia ao crime é a criança que nasce em uma favela, cresce sem acesso a saneamento básico, à saúde e à educação de qualidade, e morre sem sequer saber o que é ter a oportunidade de viver de forma digna. Apologia ao crime é quando o Estado se ausenta da vida dessas crianças e, ao invés de criar políticas públicas que visem a inclusão, a igualdade e a justiça social, escolhe, em sua indiferença, manter esses corpos afastados da prosperidade.
Apologia ao crime é um país como o Brasil, onde, mais de 130 anos após a abolição da escravidão, 70% dos moradores de favelas são negros, resultado de um racismo estrutural que não só marginaliza, mas oprime. Não é à toa que, quando falamos de favela, estamos falando de um espaço em que as leis e os direitos são desconstruídos, e onde a sobrevivência é o principal instinto que move a população.
A apologia feita pela desigualdade social
Apologia ao crime é ver um pai de família, com salário mínimo, testemunhar o sofrimento e a morte de um filho, enquanto, a poucos metros de distância, no condomínio de luxo da classe alta, uma criança joga tênis e vive sem saber o que é a falta de recursos. Apologia ao crime é a diferença gritante entre os que têm tudo e os que não têm nada, e mais grave ainda: é a percepção de que esses dois mundos, tão distantes, parecem não se tocar, não se entender.
Apologia ao crime é o Brasil ser um dos maiores exportadores de alimentos do mundo e, ainda assim, ter quase 10 milhões de pessoas passando fome. Como isso é possível? Como um país rico em recursos, terras e produtos essenciais para a sobrevivência humana, permite que tantos vivam à margem da sociedade, privados do básico para a vida? A fome, a pobreza e a miséria são crimes contra a humanidade, e quando o Estado não se responsabiliza, ele faz apologia a essas condições.
A apologia do sistema
Apologia ao crime é a resistência em reconhecer os direitos das empregadas domésticas, um dos setores mais explorados do país, sendo as últimas a terem seus direitos trabalhistas reconhecidos. A classe trabalhadora, principalmente as mulheres negras, é historicamente invisibilizada e desvalorizada. O Brasil fez uma escolha: deixar que as relações de trabalho continuassem desiguais, com uma enorme disparidade entre os que possuem e os que precisam vender sua força de trabalho para sobreviver.
Apologia ao crime é prender uma mulher grávida e viciada em crack porque ela roubou um par de chinelos. Sim, ela roubou porque a pobreza, a falta de estrutura familiar e social, e o vício a levaram a isso. Mas e o fazendeiro que abastece com cocaína os helicópteros de políticos e os aviões da FAB? Onde está a justiça para ele? O que seria mais grave: uma mulher que cometeu um crime para sobreviver ou o empresário que lucra com a morte e o sofrimento de milhares de pessoas?
O crime da omissão
Apologia ao crime é não ter responsabilizado ninguém pelos crimes da ditadura militar, um período sangrento da história do Brasil que destruiu vidas, famílias e sonhos. A impunidade de décadas é uma das formas mais cruéis de apologia ao crime. O Brasil decidiu, por muito tempo, esquecer e negar as atrocidades que aconteceram durante aqueles anos, deixando de lado as vítimas, suas famílias e o sofrimento causado. O não reconhecimento desses crimes é um crime de lesa-humanidade, e é um reflexo de como o país ainda lida com sua herança de violência e repressão.
O crime que é a consequência de séculos de desigualdade
No final das contas, o crime que vemos descendo de fuzil e roubando o seu carro não é um fenômeno isolado. Ele é o resultado de séculos de uma história criminosa, construída pela desigualdade, pelo racismo, pela marginalização, e pela ausência de políticas públicas que promovam a inclusão. Quando o Estado falha em garantir a dignidade, ele cria condições para o surgimento de uma violência que, muitas vezes, é a única saída para aqueles que foram jogados à margem.
O crime, neste sentido, não é apenas aquele cometido por indivíduos que violam a lei. O maior crime é o que o Estado comete todos os dias quando escolhe não investir em educação, saúde e igualdade. O maior crime é o que se perpetua em um sistema que mantém os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Esse é o crime que destrói vidas, que gera violência e que, por fim, faz da apologia ao crime uma prática institucionalizada.
O crime, portanto, não é apenas o ato do marginal, mas a consequência de um sistema que não vê as pessoas como seres humanos, mas como números em uma equação de desigualdade. E a verdadeira apologia ao crime é aceitar essa realidade como natural.
Trago Fatos, Marília Ms.


Comentários
Postar um comentário