Sergipe: Terra Indígena Lavada em Sangue e Silêncio
Sergipe, embora pequeno em extensão territorial, carrega sobre seus rios, matas e serras uma memória ancestral dilacerada pela violência colonial e pela perversidade da elite local. A história oficial do estado, moldada por mãos brancas e interesses senhoriais, nega ou minimiza a existência e a resistência dos povos originários. Mas antes de ser "Sergipe", este chão já era morada dos Tupinambá, Kiriri, Fulkaxó, Boimé, Karapotó, Kaxagó, Caeté, Aramuru, Xokó e muitos outros. Povos que falavam línguas diversas, praticavam saberes milenares, plantavam, dançavam, celebravam a vida e se organizavam em formas sociais que o colonialismo tentou destruir.
A “conquista” de Sergipe , como a história eurocentrada costuma chamar ,é, na verdade, um genocídio sistemático. E esse termo não é usado de forma leviana: trata-se de extermínio físico, apagamento cultural, expulsão territorial e violência simbólica. Em 1575, dois pretextos foram suficientes para justificar o primeiro massacre em massa: os indígenas estariam aliados aos piratas franceses e entre eles viveriam os Caetés, que, supostamente, haviam devorado o bispo dom Fernando Sardinha. A narrativa foi habilmente construída para justificar a barbárie: genocidar era "civilizar", matar era "salvar".
Cristóvão de Barros foi o executor da carnificina que culminou em janeiro de 1590, financiado por latifundiários como Garcia D’Ávila, cujo desejo era a terra, e o lucro advindo da escravização dos indígenas. O que se seguiu foi um cenário de horror: corpos dilacerados, aldeias destruídas, crianças arrancadas de suas mães e levadas ao cativeiro. O cacique Siriri morreu lutando, e o guerreiro Serigy ,ou Baopeda , teria se recusado a comer na prisão até morrer. Surubi e Aperipê tombaram como heróis anônimos, apagados dos livros didáticos, das estátuas públicas e da consciência coletiva.
Mas os massacres não cessaram com o tempo. Em 1759, Marcos de Noronha expulsou os jesuítas de Sergipe e iniciou-se uma verdadeira caçada aos indígenas, desta vez com o patrocínio declarado da elite local. A Carta Régia de 1798 é um retrato brutal da desumanização: indígenas sem "estabelecimento próprio" deveriam ser obrigados ao trabalho forçado. Uma forma de legitimar a escravização sob o verniz da legalidade. Já em 1825, o então presidente da província, Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque, ordenou que todos os indígenas fossem recolhidos para Tomar do Geru, como se fossem lixo social a ser varrido para os cantos da história. Outros foram coagidos a servir no Exército e na Marinha, sendo usados como massa de manobra do mesmo Estado que lhes negava o direito de existir.
A violência foi tamanha que, em todo o território sergipano, não restaram muitas comunidades verdadeiramente originárias. O único grupo que conseguiu resistir, mesmo que disperso , foi o povo Xokó, que só nos anos 1980 passou a se reconhecer enquanto tal, fixando-se na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, na divisa com Alagoas. Hoje, essa pequena população resiste não apenas ao esquecimento, mas à pobreza estrutural, à negligência do Estado, ao racismo institucional e ao turismo que finge celebrar a cultura indígena enquanto continua lucrando com sua dor.
Sergipe é um estado que nasce elitista, um latifúndio forjado na escravização de negros e no extermínio dos povos originários. E essa herança maldita ainda estrutura suas relações sociais. A ausência de comunidades indígenas reconhecidas oficialmente não é prova de que nunca existiram. Pelo contrário: é a maior prova de que o genocídio foi completo demais. A terra sergipana é, literalmente, um cemitério a céu aberto de culturas assassinadas.
Pior do que o genocídio físico é o apagamento da memória. Os livros de história em Sergipe não contam essa narrativa com a gravidade que ela merece. Monumentos e nomes de ruas celebram assassinos como Cristóvão de Barros, mas não fazem justiça aos guerreiros Siriri, Serigy, Surubi ou Aperipê. O que se ensina nas escolas sobre a "conquista" de Sergipe omite que se tratou de uma guerra colonial patrocinada por interesses econômicos e racistas. O orgulho sergipano precisa ser reconstruído com base na verdade , e não no silêncio imposto pela elite.
Sergipe, portanto, não pode mais continuar ignorando a sua verdadeira história. É tempo de desenterrar a memória dos povos originários, reconhecer os massacres como parte fundadora do estado e reparar, minimamente, os erros cometidos. Que se ouça o grito abafado dos Xokó e que se devolva, em forma de respeito e políticas públicas, parte da dignidade roubada.
Porque nenhum povo constrói um futuro justo se insiste em esconder os escombros do passado debaixo do tapete.
Trago fatos , Marília Ms .



Comentários
Postar um comentário