O que a segurança pública em Sergipe ganha com o uso de câmeras corporais pelos policiais e guardas?
Sergipe, embora o menor estado da federação, carrega um fardo desproporcionalmente grande quando se trata da violência policial. A taxa de 10,4 mortes por intervenção policial a cada 100 mil habitantes coloca o estado entre os mais letais do país nesse quesito. Diante desse cenário alarmante, o uso de câmeras corporais por policiais e guardas não é apenas uma solução tecnológica: é uma exigência ética, uma medida de transparência e, acima de tudo, uma chance de restaurar a confiança entre o povo e o aparato de segurança pública.
O que se percebe é que, ao serem colocadas em prática, as câmeras corporais agem como um espelho em tempo real para os profissionais da segurança. A simples consciência de estar sendo filmado reduz significativamente a probabilidade de condutas abusivas. Não é apenas sobre vigiar o policial, mas sobre construir um ambiente de responsabilidade mútua, onde tanto o agente quanto o cidadão sabem que existe um registro objetivo dos fatos. É, também, uma forma de proteger o policial de falsas acusações e de situações que possam comprometer sua integridade.
O uso das bodycams representa um avanço civilizatório, principalmente em contextos onde fatores como estresse, medo, traumas e preconceitos podem distorcer a tomada de decisões. Ao reconhecer que o ser humano não é uma máquina e que carrega consigo influências subjetivas , inclusive raciais e de classe , estamos, finalmente, compreendendo a complexidade do policiamento em territórios socialmente vulneráveis.
Entretanto, Sergipe se vê diante de um paradoxo que precisa ser enfrentado com seriedade: é o estado do Nordeste com o menor registro oficial de casos de racismo. De 2023 para 2024, os dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos apontam um crescimento tímido de 12,5% nas denúncias (de 24 para 27 casos), enquanto no Maranhão, por exemplo, o aumento foi de 300%. Mas essa estatística representa avanço ou apagamento? Esse número pequeno é resultado de uma população mais consciente e menos racista, ou de um processo estrutural de invisibilização da violência racial?
A resposta não pode ser simplificada. O que se vê, na prática, é um estado que carece de campanhas educativas, de políticas públicas eficazes, e de uma estrutura administrativa capaz de tratar o racismo com a seriedade e prioridade que o tema exige. Faltam ações que expliquem à população que referir-se negativamente ao cabelo, à pele, ao fenótipo de uma pessoa negra é crime. Falta acesso à informação, mas falta, sobretudo, coragem institucional de enfrentar esse problema com a dignidade que ele exige.
Quando se discute a segurança pública em Sergipe, falar apenas em números de viaturas ou efetivo é enxugar gelo. O uso das câmeras corporais deve ser apenas o primeiro passo de uma mudança estrutural que inclua formação continuada dos policiais, combate ao racismo institucional, fiscalização das abordagens e participação da sociedade civil na construção de políticas públicas. Sem isso, continuaremos assistindo a um ciclo de violência que não protege ninguém e perpetua o medo, o trauma e a desigualdade.
Portanto, o que Sergipe ganha com o uso das câmeras corporais vai muito além de um equipamento preso ao colete. Ganha a possibilidade de se repensar enquanto sociedade, de redefinir a relação entre o Estado e o povo, de corrigir erros históricos e de impedir que o preconceito, a impunidade e a letalidade sigam ditando as regras do jogo. A tecnologia é apenas a ferramenta. A verdadeira revolução precisa vir da coragem política, da escuta ativa e do compromisso com a justiça. Porque segurança pública de verdade não se faz com autoritarismo , se faz com humanidade.
Trago fatos , Marília Ms .



Comentários
Postar um comentário