O preço da magreza: como a estética “heroin chic” destruiu uma geração e ainda ecoa hoje


Você já se perguntou por que tantas modelos, principalmente nos anos 90 e 2000, tinham aquele visual exausto, magérrimo, quase doentio, e por que tantas delas, por trás das passarelas, acabavam envolvidas com drogas como a cocaína?

A resposta, infelizmente, é cruel, sistêmica e passa por uma sociedade obcecada com a estética da miséria. E o mais alarmante: essa mesma obsessão está voltando, repaginada, nas trends do TikTok e no culto à magreza extrema como um “lifestyle” aspiracional.

Vamos voltar no tempo.

Kate Moss. Provavelmente você já ouviu esse nome, ou viu alguma imagem dela com as bochechas encovadas, os olhos fundos, as roupas de aparência desleixada, mas absurdamente estilosas. Ela foi o rosto do “heroin chic” , uma estética que dominou a moda dos anos 90. Esse visual não era apenas uma coincidência: ele foi deliberadamente construído. As passarelas daquela época estavam lotadas de modelos que pareciam saídas de um filme underground. Pálidas. Magras ao extremo. Olhar distante. A beleza estava associada à aparência de quem não comia, não dormia e, sim, usava drogas.

Mas como isso começou?

A indústria da moda sempre foi cruel com os corpos. Durante décadas, alimentou o mito de que só se é elegante se for magérrima. Agências exigiam medidas irreais, revistas promoviam dietas absurdas e a cultura pop reforçava o ideal da “mulher perfeita” como alguém silenciosa, misteriosa e esquelética. Não era apenas magreza: era fragilidade glamurizada.

Só que manter esse corpo e esse ritmo era, e ainda é, desumano.

Modelos viajavam o mundo, dormiam mal, comiam pouco ou nada, enfrentavam ensaios de madrugada e desfiles exaustivos. Não havia espaço para fraqueza , e muito menos para falhar. Nesse cenário, a cocaína se tornava um atalho: tirava o apetite, mantinha o corpo “dentro do padrão” e ainda dava um boost de energia para aguentar mais um trabalho. Era a solução para um problema que a própria indústria criava.

Mas tudo isso estourou quando vazaram fotos explícitas, como a de uma modelo usando drogas nos bastidores. De repente, o que antes era sussurrado nos corredores virou manchete. A verdade nua, crua e trágica apareceu: muitas das musas da moda estavam à beira do colapso físico e emocional.

E mesmo assim... a estética seguiu viva. Porque o mercado nunca deixou de lucrar com o sofrimento feminino.

Hoje, em 2025, voltamos a ver essa estética voltando pelas beiradas , só que agora com filtros, vídeos esteticamente perfeitos e garotas dizendo que querem voltar ao “corpo da era Tumblr”. A diferença? Agora, os jovens aprendem como se mutilar emocionalmente com tutoriais de “rotina skinny” e “como perder o apetite”.

É o “heroin chic” digitalizado, mascarado de "autocuidado". E o ciclo recomeça.

A crítica aqui não é moralista sobre quem usa ou não droga, mas sobre uma sociedade que naturaliza o vício como ferramenta estética. Que empurra meninas para o fundo do poço e depois as chama de glamourosas. Que prefere ver uma modelo com 45kg desmaiando na passarela do que reavaliar o que estamos consumindo como belo.

A romantização do “Harry in chique” no TikTok é só o sintoma. O problema está enraizado.

E antes que alguém diga “mas hoje as coisas mudaram”, é bom lembrar: sim, há mais representatividade e modelos de tamanhos diversos nas campanhas ,mas a pressão estética, o culto ao corpo magro e a validação digital continuam deixando garotas doentes.

No fim, a pergunta que fica é: até quando vamos aceitar que o sofrimento feminino é fashion?

Parem de romantizar a autodestruição. Parem de vender fome como estilo de vida. Não somos Kate Moss. E mesmo ela, por trás das fotos icônicas, carregava um peso que nenhuma estética pode justificar.

Trago fatos, Marília Ms.

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