“Ficar triste é normal, mas sofrer é opcional?” : Uma crítica à romantização da força emocional e ao silenciamento da dor legítima
Vivemos em uma era que adora frases de efeito. A internet está repleta de conselhos que cabem em uma imagem quadrada e ganham curtidas por parecerem profundos. “Ficar triste é normal, mas sofrer é opcional” é uma dessas frases que, à primeira vista, soa como um conselho motivacional , até reconfortante. Mas quando olhamos com mais atenção, percebemos o quanto ela pode ser cruel, desonesta e até mesmo perigosa. Porque, afinal, desde quando o sofrimento virou escolha?
Dizer que sofrer é opcional é como dizer que sentir frio é uma questão de atitude , desconsidera as condições, os contextos, a história de cada um. Sofrimento não é apenas uma reação a um fato isolado; ele é tecido, muitas vezes silenciosamente, por experiências acumuladas, por traumas mal resolvidos, por afetos que nos atravessam e que não podem ser desligados com um botão de “pensamento positivo”.
As dores que precisam ser vistas
Algumas dores não são exibidas por vaidade. Elas precisam ser vistas porque, se forem ignoradas, apodrecem por dentro. Crianças e adolescentes, por exemplo, não escondem a tristeza com o verniz da maturidade que os adultos aprenderam a usar. Quando estão tristes, se jogam no sofá, fazem cara de drama, choram alto, suspiram como se o mundo estivesse acabando. E estão certos.
É assim que precisa ser. O problema não está na intensidade da dor, mas na expectativa de que ela seja discreta, educada, silenciosa. O silêncio, sim, é que deveria nos assustar. O silêncio da criança que parou de pedir atenção. Do adolescente que desistiu de explicar o que sente. Do adulto que, cansado de não ser ouvido, aprendeu a engolir o que sente até não sentir mais nada.
A ditadura da positividade e a falácia da superação
Vivemos sob a tirania da positividade tóxica. O tempo todo nos dizem que devemos superar, reagir, ser fortes. Sofrer por muito tempo é quase uma falha de caráter. Existe uma cobrança constante para que a tristeza tenha prazo de validade , com isso, o sofrimento deixa de ser um processo humano e passa a ser um incômodo social.
Mas a dor não segue cronograma. O luto, a depressão, a perda, a frustração, a solidão , todos esses sentimentos não são resolvidos com mantras de autoajuda. E quando a sociedade impõe que o sofrimento deve ser opcional, ela faz com que o indivíduo sinta culpa por não conseguir sair dele. Ou seja: além da dor, vem a vergonha de não conseguir “vencer” a dor.
O sofrimento é humano , e às vezes necessário
Existe uma diferença entre sofrer e ser engolido pelo sofrimento. É claro que o ideal é que ninguém fique preso na dor por tempo demais. Mas não se chega à superação pulando a parte mais importante: o enfrentamento. E o enfrentamento exige presença, escuta, sensibilidade, tempo. Sofrer é parte do processo de elaborar a vida. Não é falha, nem fraqueza. É humanidade.
Mais que isso: há dores que não são apenas pessoais, mas políticas. Uma menina preta que sofre por ser invisibilizada na escola; um adolescente periférico que vê seus sonhos podados pela falta de oportunidades; um jovem LGBTQIA+ que sofre por não ser aceito pela própria família , nenhum deles escolheu esse sofrimento. E nenhum “sofrer é opcional” vai aliviar o peso estrutural da dor.
O direito ao drama e à expressão da dor
Dizer que o sofrimento precisa ser contido é também atacar o direito ao drama , esse espaço simbólico de expressão que crianças e adolescentes, especialmente, usam para comunicar o que não conseguem dizer em palavras. O choro, o exagero, a repetição, o “ninguém me entende” , tudo isso é uma linguagem emocional. Repreendê-la é cortar a possibilidade de entendimento, de empatia, de construção emocional.
Quantas vezes um adulto, olhando para trás, não percebe que aquele “draminha” de adolescência escondia dores reais? Insegurança, abandono emocional, bullying, ansiedade, solidão? O que parece pequeno para o mundo pode ser um abismo para quem sente. Validar a dor do outro é um ato de amor e respeito. E isso vale para qualquer idade.
Conclusão: mais escuta, menos julgamento
Ficar triste é normal. Mas sofrer também é. E mais que normal, é humano, legítimo, necessário em muitas etapas da vida. O sofrimento não é opcional porque ele não se escolhe , ele se vive. O que pode ser opcional, sim, é a forma como o outro responde à nossa dor: com empatia ou com julgamento. Com escuta ou com indiferença. Com presença ou com frases vazias que apenas reforçam o abandono.
Precisamos ensinar nossas crianças e jovens a nomear o que sentem, a não terem vergonha da dor, a buscar ajuda quando necessário. Precisamos criar ambientes onde chorar não seja motivo de constrangimento, onde expressar a tristeza não seja visto como fraqueza, onde sofrer não seja tratado como uma escolha egoísta.
Porque, no fundo, só quem tem o direito de sofrer com liberdade, também tem a chance real de se curar com dignidade.
Trago fatos, Marília Ms.
.png)


Comentários
Postar um comentário