Crise na Saúde Pública do Centro-Sul Sergipano: A Ausência de Neurocirurgiões e o Colapso na Urgência e Emergência


No coração do Centro-Sul sergipano, a saúde pública agoniza. O cenário é alarmante: superlotação nos hospitais, ausência de especialistas em áreas críticas como a neurocirurgia, demora na remoção de pacientes com traumas graves, e uma rede de urgência/emergência que opera no limite – ou além dele. A ausência de neurocirurgiões compromete diretamente o desfecho de atendimentos que exigem intervenção rápida, e não são poucos os relatos de mortes evitáveis causadas por essa negligência estrutural.

A situação é agravada pela centralização da neurocirurgia em Aracaju, especificamente no Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE), o único da rede pública a realizar procedimentos do tipo, e que já enfrenta seu próprio quadro de colapso. Enquanto isso, o Hospital Universitário de Lagarto, que atua como porta aberta do SUS, tenta suprir demandas muito além de sua capacidade instalada de 102 leitos. O hospital, que já abriga cerca de 200 pacientes, vê seus corredores transformados em improvisadas enfermarias, com pacientes graves dividindo espaço com casos que poderiam ser tratados em unidades de pronto atendimento ou na atenção básica.

A ausência de um sistema de retaguarda e de centros regionais com especialidades vitais, como neurocirurgia, transforma a espera por regulação em uma sentença de morte silenciosa. O Samu, com poucas ambulâncias e dificuldades logísticas, não consegue oferecer resposta eficaz à demanda. Enquanto o tempo é um fator crucial em casos de trauma craniano, a burocracia e o sucateamento do sistema de remoção tornam-se cúmplices do agravamento dos quadros clínicos dos pacientes.

Em uma tentativa de frear o caos, o Ministério Público Federal em Sergipe mediou um acordo com a Secretaria Estadual de Saúde e instituições hospitalares. No entanto, sem investimentos estruturais e uma política pública séria e comprometida com a regionalização da saúde, essas medidas são meramente paliativas. É como tentar conter uma hemorragia com um curativo de gaze.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES) tem destacado a importância do Hospital Universitário de Lagarto como parceiro estratégico na Rede de Atenção às Urgências. A recente ampliação do financiamento da unidade, em mais de R$ 1,5 milhão por mês, é uma iniciativa válida, mas ainda tímida diante da magnitude do problema. A ampliação de recursos não resolve a ausência de especialistas, tampouco a carência de equipamentos, insumos, e principalmente, de uma política eficaz de descentralização da saúde especializada.

A declaração do próprio hospital de Lagarto, ao afirmar que não é referência em neurocirurgia, escancara o abismo entre a demanda populacional e a rede disponível. Esse é um estado onde apenas uma unidade hospitalar atende a casos neurocirúrgicos, mesmo diante de uma população em expansão e um trânsito cada vez mais violento – cenário fértil para traumatismos cranianos. É um paradoxo trágico.

A crise de atendimento no interior de Sergipe não é recente, mas se aprofunda a cada dia com a falta de políticas públicas consistentes. A sobrecarga nas unidades de referência decorre também da ineficiência das redes municipais de saúde, que não absorvem os atendimentos de baixa e média complexidade como deveriam. A ausência de UPAs, a precariedade dos postos de saúde e a falta de gestão nos municípios obrigam o cidadão a procurar socorro direto nas emergências hospitalares, gerando um efeito dominó de superlotação, demora no atendimento e desassistência.

O Conselho Regional de Medicina de Sergipe já demonstrou preocupação com o colapso da assistência médica no interior do estado. A falta de especialistas não se limita à neurocirurgia. Cardiologistas, intensivistas, ortopedistas e anestesistas também escasseiam, dificultando o funcionamento das emergências e das salas de cirurgia.

É urgente que o Estado de Sergipe encare a saúde pública como uma prioridade real e inegociável. O modelo centralizador é ineficiente, injusto e mortal. Precisamos de investimentos em polos regionais de saúde, na ampliação da formação de especialistas, na criação de incentivos para a fixação de profissionais no interior, e sobretudo, de uma gestão que reconheça que saúde não é gasto – é investimento em dignidade, em cidadania, em vida.

A ausência de neurocirurgiões é só a ponta do iceberg de um sistema que já afunda há muito tempo. Se o governo continuar tratando com paliativos um problema que exige tratamento intensivo, as consequências continuarão sendo medidas em perdas irreparáveis. Não apenas de vidas, mas de confiança, de humanidade, de esperança.

Enquanto isso, o povo sergipano segue esperando. E morrendo.

Trago fatos , Marília Ms 

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