“CLT virou xingamento nas escolas: O reflexo perverso de uma educação neoliberal por uma geração que entenda os direitos antes de rejeitá-los



Era meme. Agora é realidade. E uma bem preocupante. Em algumas escolas, crianças começaram a se xingar de "CLT" como se fosse ofensa. “Você é CLT, seu pobre!” , dizem umas para as outras, repetindo sem saber os discursos mais rasos da ideologia neoliberal. Esse comportamento, que pode parecer piada ou exagero, na verdade escancara um projeto muito mais profundo e estruturado: a transformação da educação em ferramenta para a naturalização da precarização do trabalho.

Foi assistindo a um vídeo da Fabi Bubu, criadora de conteúdo sobre maternidade, que muita gente caiu na real. Nele, sua filha explica por que não quer ser CLT quando crescer. Entre os motivos, estão andar de ônibus lotado, seguir ordens de um chefe e... ser pobre. A associação direta entre vínculo empregatício formal e falta de prestígio social não nasceu com ela. Está sendo plantada, regada e fertilizada por um modelo de ensino e de sociedade que glorifica o empreendedorismo, mas se cala sobre os direitos trabalhistas.

A CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, foi um marco para o trabalhador brasileiro. Garantiu o que parecia básico, mas que nunca foi fácil: férias remuneradas, décimo terceiro, jornada de trabalho limitada, FGTS, licença maternidade e estabilidade mínima. Foi resultado de lutas históricas e de conquistas coletivas. Mas hoje, parece que virou sinônimo de fracasso. E isso não é acaso , é projeto.

O novo ensino médio: a máquina de formar “empreendedores” precarizados

Com a reforma do ensino médio, uma narrativa perigosa começou a se solidificar nas escolas. Em vez de formar cidadãos críticos, que questionem a desigualdade social e a concentração de renda, estamos moldando jovens para aceitarem, com sorriso no rosto, as regras do jogo neoliberal. Empreendedorismo virou matéria, quase como doutrina. Ser chefe é sucesso; ser empregado é fracasso.

O problema não está em empreender. O problema é esconder da juventude que empreender, num país com baixo acesso a crédito, mercado concentrado e extrema desigualdade, é muito mais uma necessidade do que uma escolha. E pior: em nome dessa “cultura do empreendedorismo”, estamos ensinando as crianças que direitos trabalhistas são um fardo, e que o trabalhador formalizado é um acomodado.

A glorificação da pejotização: o trabalhador-empresa e a farsa da autonomia

Ao demonizar a CLT, o que sobra? A pejotização. A ideia de que o trabalhador é um "empresário de si mesmo", dono de sua liberdade, sem chefe, sem amarras. Mas a verdade é outra: ele é dono apenas da sua própria instabilidade. Trabalha por demanda, sem férias, sem décimo terceiro, sem INSS, sem garantias. Tem que emitir nota, pagar contador, bancar os custos de equipamentos e se virar quando adoece. E isso tudo para muitas vezes continuar trabalhando para uma única empresa, que se exime de qualquer responsabilidade.

Essa “liberdade” é a mais perversa das prisões: a liberdade de ser explorado sem direito de reclamar.

A nova moral das crianças: odiar o que tenta protegê-las

É nessa lógica invertida que uma criança acha ofensivo ser CLT. Ela não entende que pegar ônibus lotado não é culpa da CLT , é resultado da má distribuição de renda, da falta de transporte público de qualidade, da urbanização excludente. Ela não vê que ter chefe não é humilhação, mas uma parte da dinâmica do trabalho em equipe, e que o problema real está nos ambientes abusivos, não na estrutura em si. O “ser pobre” virou insulto, não porque a criança é má, mas porque foi treinada a ver a pobreza como culpa individual, e não como falha sistêmica.

Estamos ensinando nossas crianças a não questionar o sistema que as precariza, mas a odiar os resquícios de proteção que ainda temos.

A importância de conversas como a da Fabi com sua filha

Por isso o vídeo da Fabi é tão importante. Porque em vez de rir da filha ou simplesmente corrigir, ela sentou para conversar, refletir, problematizar. Trouxe para a internet uma pauta que deveria estar nas salas de aula: o debate crítico sobre o mundo do trabalho, o que é direito, o que é exploração, o que é ideologia. Mostrou que é possível educar com consciência de classe, e que os pais também têm um papel fundamental na formação social e política dos filhos.

Mais do que formar “vencedores”, precisamos formar cidadãos

A educação deveria servir para ampliar horizontes, não para reforçar as grades invisíveis do capitalismo. É preciso ensinar desde cedo que não há vergonha em ser trabalhador. Que direitos não são esmolas, mas conquistas. Que o coletivo vale mais do que a ilusão de sucesso individual. Que ninguém é menos por trabalhar das 8h às 17h, mas sim que todos merecem trabalhar com dignidade, respeito e direitos garantidos.

Se hoje as crianças estão zombando da CLT, imagine o choque quando descobrirem o que é estágio. Ou pior: o que é trabalhar como entregador de app sem nenhum respaldo legal, dependendo de avaliações, algoritmos e sorte. O futuro que estamos desenhando é cruel. Mas ainda dá tempo de redesenhá-lo.

Que tal começarmos explicando para as crianças que "CLT" não é palavrão — é, na verdade, um escudo que os mais velhos lutaram para deixar como herança? Um escudo que, apesar das rachaduras, ainda protege do pior. E que, ao invés de quebrá-lo de vez, deveríamos todos , crianças, jovens e adultos,  nos unir para reforçá-lo e ampliá-lo. Porque a luta de classes não tem idade, mas precisa, urgentemente, de consciência.

Trago fatos , Marília Ms.

Comentários

Matérias + vistas