A morte lenta da contracultura: Por que a geração alfa não está quebrando padrões?
Mas hoje, em pleno século XXI, temos visto a chama da contracultura apagar lentamente. E isso é preocupante. Estamos diante de uma nova geração , a chamada geração alfa , que, apesar de extremamente conectada, tem se mostrado distante dessas manifestações mais agressivas de resistência. Onde foram parar os gritos de revolta? Onde estão as cores berrantes, os cortes de cabelo ousados, os panfletos, os muros pichados, os manifestos incendiários?
É claro que não podemos generalizar ou cair na armadilha do saudosismo. A juventude segue sendo inquieta, criativa e, muitas vezes, engajada. Mas há algo de diferente acontecendo , e isso tem muito a ver com o modo como vivemos hoje. A internet, que parecia prometer mais liberdade, nos jogou em bolhas algorítmicas. O que consumimos, vemos e discutimos é filtrado por máquinas que reforçam nossos gostos, repetem nossos pontos de vista e evitam o confronto. Vivemos confortavelmente cercados por conteúdos que já nos agradam , e, nesse conforto, deixamos de nos incomodar com o mundo.
Além disso, há uma vigilância crescente. Crianças e adolescentes são monitorados desde cedo, com supervisão constante dos pais, da escola, dos aplicativos. Isso gera menos autonomia, menos espaço para o erro, para a ousadia, para o desvio necessário que sempre alimentou a contracultura. O medo de viralizar negativamente, de ser cancelado ou exposto, também freia impulsos mais radicais de expressão.
Outro ponto essencial: os movimentos contraculturais sempre foram corporais. Nascem nas ruas, nos encontros físicos, nos olhares trocados. A digitalização afastou os corpos. Transformamos coletivos em grupos no WhatsApp, protestos em hashtags e rebeldias em filtros do Instagram. A identidade coletiva, que era construída no convívio e na presença, agora se dissolve na velocidade de uma rolagem de tela.
E por falar em velocidade, vivemos a era da fadiga do ativismo. As causas surgem, viralizam e desaparecem com a mesma rapidez. Um assunto gera engajamento por uma semana, depois é substituído por outro. Tudo vira tendência. E tudo que é tendência, um dia, cansa. Com isso, muitos jovens se tornam apáticos , não porque não se importem, mas porque estão exaustos de tanto se importar por tão pouco tempo.
Vale lembrar que o capitalismo também aprendeu a domesticar a rebeldia. Hoje, camisetas com frases de revolução são vendidas por grandes marcas, e discursos “militantes” são embalados em campanhas publicitárias. A contracultura virou estética, consumo, produto. E produto, no capitalismo, é sempre algo que pode ser descartado quando não rende mais.
Claro que ainda existem resistências. Ainda há jovens que questionam, que criam, que incomodam. Mas esses movimentos estão cada vez mais fragmentados, menos visíveis, menos impactantes. A contracultura não morreu ,mas está sendo sufocada, diluída e, em muitos casos, esvaziada de sentido.
E isso precisa nos alertar.
Porque quando ninguém mais contesta, não é sinal de que está tudo bem. É sinal de que estamos aceitando demais, questionando de menos e nos acomodando em uma cultura que já entendeu como lucrar até com a nossa rebeldia.
O futuro precisa de novas contraculturas. Não como cópias do passado, mas como criações do presente. Porque só desafiando o que é que a gente pode imaginar o que ainda pode ser.
Trago fatos , Marília Ms.
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