O Lucro do Ódio: Como a Misoginia Monetizada Domina o Brasil Digital
No Brasil, odiar mulheres não é apenas permitido e também se torna altamente lucrativo. A pesquisa conduzida pela UFRJ e pelo Ministério das Mulheres escancara o problema: 7.812 canais no YouTube, com mais de 4 bilhões de visualizações, todos monetizados, promovendo misoginia sem pudor. Esses números refletem uma verdade incômoda sobre o ambiente digital: a violência contra mulheres não apenas prospera, mas também é premiada financeiramente. Enquanto isso, 70% das vítimas de crimes de ódio na internet são mulheres, e a resposta das autoridades, das plataformas e da sociedade é um grande e vergonhoso silêncio.
Como chegamos até aqui? Homofobia é crime. Racismo é crime. Mas misoginia? Para o sistema jurídico brasileiro, ela parece invisível. Embora a Constituição proíba discriminação de gênero, na prática, não existe uma legislação eficaz para coibir discursos de ódio contra mulheres. Essa lacuna legal permite que o ódio prospere e se dissemine como uma praga, transformando plataformas digitais em palcos para o lucro desmedido dos misóginos.
E as plataformas? Lavam as mãos. Sob o pretexto de "liberdade de expressão", priorizam o engajamento e os lucros em detrimento da segurança. Cada clique, cada comentário inflamado, cada compartilhamento gera receita e quanto mais polarizado o conteúdo, maior a audiência. A responsabilidade recai, então, sobre uma legislação já atrasada e ineficiente, que não acompanhou a rapidez com que o ódio digital se organizou.
O mais assustador é a sofisticação do discurso. O antifeminismo, que era um nicho reacionário em 2014, evoluiu para uma nova onda de conservadorismo juvenil, estrategicamente desenhada para parecer “intelectual” e “racional”. Mas a essência é a mesma: deslegitimar as mulheres, alimentar estereótipos e perpetuar a violência simbólica e real. O caso de Maria da Penha, vítima de uma brutal campanha de desinformação que questionou sua própria vivência de violência doméstica, é um exemplo emblemático. Mesmo sendo um dos nomes mais importantes da luta pelos direitos das mulheres, ela precisou de proteção governamental para sobreviver às ameaças que recebeu. E os responsáveis? Continuam impunes.
O problema não é só a disseminação de desinformação e ódio, mas a influência profunda que esses conteúdos exercem sobre jovens em formação. É um ciclo vicioso: homens lucram com o ódio contra mulheres, jovens são doutrinados por esses discursos, e uma nova geração de misóginos é formada, perpetuando a desigualdade e a violência.
Enquanto isso, feministas e criadoras de conteúdo voltado para os direitos das mulheres enfrentam um cenário oposto. O algoritmo não é generoso com quem luta por equidade. Produzir conteúdo feminista não é apenas menos lucrativo é perigoso. Denúncias, boicotes, ataques organizados e silenciamento fazem parte do cotidiano dessas mulheres.
O projeto de lei que criminaliza a misoginia, atualmente parado, não pode continuar assim. É uma questão de urgência nacional. Não se trata apenas de punir os responsáveis por discursos de ódio, mas de criar uma cultura digital que respeite os direitos humanos e promova a civilidade. A omissão legislativa e social custa vidas, destrói reputações e perpetua um ciclo de violência que já deveria ter sido interrompido há décadas.
Precisamos agir. Não podemos aceitar que o lucro continue sendo mais importante que a dignidade humana. Não podemos deixar que plataformas sejam cúmplices desse crime, que legislações permaneçam inertes, que discursos de ódio formem a base da educação de nossos jovens. A misoginia, seja online ou offline, deve ser tratada pelo que realmente é: um crime. E como sociedade, é nossa responsabilidade garantir que aqueles que promovem ódio, desinformação e violência sejam responsabilizados por suas ações. O silêncio não pode mais ser uma opção.
Trago fatos , Marília Ms


Comentários
Postar um comentário