Mitidieri e a Crise da Oposição: A Perpetuação de um Governo sem Propostas Transformadoras

 


O cenário político de Sergipe revela uma dinâmica curiosa e, de certa forma, preocupante, na qual a figura de Fábio Mitidieri (PSD) se mantém na disputa pela reeleição, mesmo diante de uma gestão marcada pela baixa popularidade e pela ausência de um legado transformador. Apesar de não se destacar como um líder carismático ou um gestor inovador, Mitidieri consegue avançar em seu mandato devido, em grande parte, à fragmentação e à ineficácia de uma oposição que, em vez de oferecer alternativas reais, se limita a apoiar o status quo.

Desde o início de seu governo, Mitidieri teve a oportunidade de se reinventar e apresentar um projeto de governo capaz de transformar as expectativas da população sergipana. Contudo, a gestão, que em um primeiro momento poderia ter se destacado pela promessa de renovação, acabou se reduzindo à realização de eventos festivos e iniciativas pontuais que, embora chamem a atenção momentaneamente, não se traduziram em políticas públicas estratégicas. A ausência de um plano de governo robusto e de propostas que impulsionassem o desenvolvimento do estado é notória, o que torna sua popularidade modesta e seu legado ainda mais efêmero.

Um dos pontos críticos dessa conjuntura é a falta de uma oposição organizada e articulada. Historicamente, Sergipe teve governadores que enfrentaram desafios políticos intensos, contanto com adversários como João Alves, Marcelo Déda, Jackson Barreto (MDB) e Belivaldo Chagas (Podemos), que, ao mesmo tempo em que criticavam o governo, buscavam construir alternativas e debates que, ao menos, apontassem para mudanças. No caso de Mitidieri, porém, o cenário oposto se configura: uma oposição praticamente inexistente, desprovida de liderança e incapaz de propor um contraponto que desafiasse efetivamente o atual arranjo de poder.

Dentro do espectro político, a esquerda encontra-se dividida e acomodada. Partidos como PCdoB, PDT, PSB e até mesmo uma parcela do PT, que historicamente poderiam ser motores de uma oposição construtiva, estão agora envolvidos com cargos e benefícios dentro do próprio governo. Essa conivência institucional enfraquece a possibilidade de um debate real sobre o futuro de Sergipe, deixando apenas espaços reduzidos para vozes dissonantes, como as do PSOL, que, mesmo tentando se reposicionar, ainda não conseguiram conquistar a confiança do eleitorado nem expandir sua atuação além dos grandes centros urbanos, especialmente Aracaju.

O próprio PT, que no segundo turno de 2022 obteve 48,3% dos votos e se apresentou como uma alternativa ao projeto governamental, acabou se fragmentando internamente. A busca por cargos e benefícios, em detrimento de uma agenda política consistente, fez com que parte do partido abandonasse a oposição antes mesmo de Mitidieri tomar posse. Esse episódio não apenas traí os eleitores que depositaram suas esperanças em uma mudança de rumo, mas também contribuiu para a consolidação de um ambiente político onde interesses pessoais e a disputa por privilégios parecem superar o compromisso com políticas públicas de impacto.

No campo da direita, a influência do bolsonarismo já se fazia sentir desde o primeiro turno eleitoral. Inicialmente, havia um apoio significativo que poderia ter sido revertido em críticas mais contundentes, mas a migração de parte do eleitorado que estava com Valmir de Francisquinho (PL) para o campo do governismo demonstra como a lealdade partidária e ideológica tem cedido lugar a interesses pragmáticos. A oposição de direita, que restou praticamente com o PL de Itabaiana, sofre ainda com o desgaste provocado por processos jurídicos que afetam Valmir, e pela ausência de uma liderança alternativa que pudesse contestar o poder de Mitidieri de maneira efetiva. A expectativa de que o próprio PL venha a oficializar seu apoio ao governador em 2026 é um indicativo claro de como as divergências internas se dissolvem perante a necessidade de manter o equilíbrio de forças, ainda que este equilíbrio seja, na prática, um reflexo da inércia política.

A falta de uma oposição robusta tem implicações profundas para a qualidade do debate político em Sergipe. Em vez de promover um ambiente de questionamento e de proposição de novas ideias, a atual conjuntura favorece a manutenção de uma lógica política que privilegia a ocupação de cargos e a distribuição de benesses em detrimento de um planejamento estratégico voltado ao desenvolvimento do estado. Essa situação é especialmente preocupante porque, em um cenário onde o debate público é praticamente inexistente, a população é privada de alternativas que possam romper com ciclos de clientelismo e favorecimento pessoal.

Adicionalmente, o uso frequente de eventos festivos e a celebração de datas simbólicas têm sido, para Mitidieri, uma estratégia para mascarar a falta de resultados expressivos. Embora tais iniciativas possam criar momentos de efervescência social e dar a impressão de um governo próximo da população, elas não substituem a necessidade de políticas públicas bem fundamentadas e de uma gestão que se preocupe efetivamente com questões estruturais, como saúde, educação e segurança. Assim, a marca registrada desse governo é, infelizmente, a de um ciclo que se renova apenas pela ausência de uma oposição eficaz, e não pela força de propostas transformadoras.

Em síntese, a reeleição de Fábio Mitidieri parece cada vez mais uma consequência do vácuo de oposição e da desarticulação dos partidos que deveriam, em teoria, representar uma alternativa ao governo. O cenário apontado por esse contexto revela uma política de acomodação e de interesses pessoais que, ao invés de oferecer à população sergipana uma perspectiva de desenvolvimento e renovação, reafirma uma estrutura onde o poder se perpetua sem a devida prestação de contas e sem o surgimento de uma agenda política que realmente atenda às demandas dos cidadãos. O desafio para o futuro de Sergipe, portanto, não reside apenas em uma possível reeleição, mas na urgente necessidade de se reconectar o poder político com as reais necessidades da sociedade, rompendo com a lógica do clientelismo e da distribuição de privilégios que tem marcado a gestão atual.

Trago fatos , Marília Ms

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