Fé, Poder e Preconceito: A Aliança Perigosa do Catolicismo com a Extrema Direita
A aliança entre Bolsonaro, Nicolas e Frei Gilson representa, em muitos aspectos, a cristalização de uma agenda política e ideológica que se apoia em discursos retrógrados e excludentes. Essa convergência, que à primeira vista pode parecer uma simples afinidade de personalidades, revela um aparato que vai além de gostos pessoais: trata-se de uma estratégia de mobilização de uma parcela da população que se sente confortada por visões conservadoras e autoritárias, mesmo que isso signifique legitimar ideias que promovem o racismo, o machismo, a homofobia e outras formas de preconceito.
Historicamente, o Brasil já experimentou diferentes fases de autoritarismo e de discursos que privilegiam hierarquias fixas. No atual cenário, a política bolsonarista se apoia fortemente na ideia de uma “ordem natural”, na qual certas estruturas sociais , como a liderança masculina e a submissão da mulher , são tidas como inerentes e divinamente ordenadas. Bolsonaro e figuras como Nicolas, ao apoiar Frei Gilson, não apenas reforçam essa visão, mas também delegam a esse religioso a missão de ser porta-voz e justificador moral dessa narrativa. Tal aliança se consolida justamente em momentos delicados, como durante campanhas eleitorais ou em datas simbólicas, quando a polarização ideológica se intensifica.
Frei Gilson, ao utilizar seu púlpito para enunciar ideias que resgatam um passado onde a mulher teria um papel estritamente subordinado , “nascer para auxiliar o homem” ,recorre a um discurso que, além de anacrônico, ignora as transformações sociais e históricas que têm permitido o avanço dos direitos e da autonomia feminina. Em suas falas, é possível identificar uma tentativa deliberada de associar a luta contra o “comunismo” e o “empoderamento feminino” a uma suposta ameaça à ordem natural. Ele critica o movimento antirracista e o chamado “empoderamento” como modismos que, na visão dele, desviam o verdadeiro propósito da existência humana, distorcendo a ordem divina.
Essa retórica, que se vale de interpretações literais e seletivas de textos sagrados, tem o intuito de justificar práticas de exclusão e de manutenção de estruturas de poder que beneficiam apenas uma parcela da sociedade. Ao afirmar, por exemplo, que “a mulher tem que ser submissa e servir ao homem”, Frei Gilson não apenas nega a complexidade das relações humanas, mas também contribui para a perpetuação de uma cultura que legitima a violência e a desigualdade.
Quando líderes políticos como Bolsonaro e Nicolas endossam figuras como Frei Gilson, estão, de maneira explícita ou velada, compactuando com um conjunto de valores que promovem a exclusão e o conservadorismo extremo. Esse apoio não se trata de uma manifestação isolada ou de um mero alinhamento ideológico pontual, mas sim de um movimento que visa consolidar uma base eleitoral que se identifica com valores religiosos e tradicionais. Essa base, por sua vez, encontra na retórica de Frei Gilson uma justificativa para rejeitar avanços sociais que promovam a igualdade de gênero, os direitos das minorias e uma política verdadeiramente inclusiva.
A escolha de apoiar Frei Gilson revela também uma estratégia clara de polarização: ao posicionar-se contra o que ele chama de “empoderamento” , que, para ele, seria o desejo insaciável de poder da mulher , os apoiadores reforçam uma dicotomia entre “nós” (os que defendem a ordem tradicional) e “eles” (os que lutam por mudanças sociais). Esse tipo de discurso, que simplifica debates complexos em termos binários, é especialmente perigoso em um país como o Brasil, onde a diversidade e a pluralidade deveriam ser celebradas.
Embora Frei Gilson não seja criticado exclusivamente pela esquerda, há uma parcela significativa da população que rejeita suas declarações. Esse repúdio não surge de uma luta ideológica abstrata, mas do entendimento de que tais discursos representam uma ameaça real à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. O fato de que, durante uma missa ou em uma live pré-eleitoral, Frei Gilson faça afirmações que associam o feminismo a uma “fraqueza” ou que minimizam a importância dos movimentos antirracistas, demonstra o quão descompassadas essas ideias estão com a realidade social contemporânea.
É importante destacar que a crítica a esse tipo de discurso não é um ataque à liberdade de expressão , um direito fundamental , mas uma reação à utilização da fé e da religião para promover ideologias que visam manter relações de poder abusivas e ultrapassadas. Enquanto figuras como o padre Júlio Lancelotti foram perseguidas por atos de solidariedade e por questionarem as estruturas estabelecidas, Frei Gilson é aplaudido por aqueles que veem na sua fala uma confirmação de suas crenças conservadoras. Essa dualidade evidencia o quão polarizada a sociedade brasileira se tornou, onde valores humanos e democráticos são constantemente colocados em xeque por narrativas que privilegiam interesses específicos.
Um dos aspectos mais alarmantes das declarações de Frei Gilson é a forma como ele aborda a “guerra dos sexos”. Ao afirmar que a mulher, ao buscar o empoderamento, estaria contrariando uma ordem natural estabelecida por Deus, ele desvaloriza a luta histórica por igualdade e autonomia. Essa perspectiva não reconhece que a reivindicação por direitos iguais não é uma busca pelo “poder” no sentido negativo, mas sim pela oportunidade de viver com dignidade e liberdade.
A narrativa de que “o homem foi feito para liderar e a mulher para servir” é uma visão profundamente limitada e redutora, que ignora não apenas as conquistas históricas do feminismo, mas também a capacidade das mulheres de serem protagonistas de suas próprias histórias. Essa visão, quando disseminada em ambientes de grande alcance , como em transmissões ao vivo antes de momentos eleitorais ou em celebrações religiosas , corre o risco de reforçar estereótipos que prejudicam o desenvolvimento social e econômico de metade da população.
A confluência entre figuras políticas e líderes religiosos, exemplificada pela aliança entre Bolsonaro, Nicolas e Frei Gilson, é sintomática de uma tendência que busca legitimar, por meio de discursos religiosos, políticas que excluem e segregam. Ao apoiar um religioso que defende ideias retrógradas, esses líderes políticos não só reforçam narrativas discriminatórias, mas também contribuem para a manutenção de um sistema que se beneficia da desigualdade e do preconceito.
Para além das críticas diretas às declarações de Frei Gilson, essa aliança levanta questões fundamentais sobre o papel da religião na esfera pública e sobre os limites entre fé e política. Em um país marcado por sua diversidade cultural e religiosa, é essencial que os discursos , sejam eles políticos ou religiosos, busquem promover a inclusão e a justiça social, e não a perpetuação de hierarquias que negam a dignidade humana.
Enquanto uma parcela da população se alimenta dessas ideias conservadoras, é imprescindível que a sociedade civil e os movimentos sociais continuem a lutar pela ampliação dos direitos, pela equidade de gênero e pelo respeito às diferenças. A crítica a figuras como Frei Gilson não é um mero posicionamento ideológico, mas uma defesa dos valores democráticos e dos direitos humanos, que devem prevalecer em qualquer sociedade que almeje o progresso e a justiça para todos.
Em síntese, o apoio de Bolsonaro e Nicolas a Frei Gilson é um sintoma de um problema muito mais profundo: a consolidação de um discurso que une política e religião em uma tentativa de manter estruturas de poder que já não têm lugar em uma sociedade democrática e plural. O desafio que se impõe é justamente o de romper com essas narrativas e construir um futuro onde a igualdade, o respeito e a dignidade sejam as bases de toda relação social.
Trago Fatos, Marília Ms.



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