A Máscara do "Super Pai": Expondo a Face Sombria da Epidemia dos Abusos Digitais Infantil



 A presença de figuras como John John : o “Super Pai” , no ambiente digital, especialmente em plataformas como o TikTok, revela um lado obscuro da influência midiática contemporânea, onde o carisma e a ostentação podem ser empregados para propagar ideias que, longe de proteger, colocam em risco a integridade dos mais vulneráveis.

Desde o primeiro contato, torna-se impossível ignorar o paradoxo de um personagem que se apresenta como uma figura paterna exemplar, mas cuja trajetória e discurso carregam resquícios de uma normalização do impensável. Ao navegar por conteúdos que, sob o manto da irreverência e da provocação, abordam temas delicados como a exploração sexual de crianças e adolescentes, o público se vê diante de uma ironia cruel: um suposto “super pai” que, em vez de fortalecer valores e proteger a inocência, acaba por alimentar narrativas perigosas e distorcidas.

Os dados alarmantes do último registro de 2024 não podem ser subestimados. Com mais de 11 mil denúncias de violação sexual registradas no Brasil e a constatação de que aproximadamente 320 crianças e adolescentes são explorados sexualmente a cada 24 horas, números que, por si só, já denunciam uma realidade de violência e descaso , percebemos que a influência de conteúdos polêmicos pode ter efeitos nefastos. Essa gravidade é ampliada pelo fato de que apenas 7 em cada 100 casos chegam ao conhecimento das autoridades, reflexo de um sistema permeado pelo medo, pela manipulação e, muitas vezes, pela falta de uma rede de apoio robusta.

Ao promover conteúdos que, sob o disfarce da provocação, parecem validar e até incentivar comportamentos abusivos, John John e perfis semelhantes contribuem para a formação de uma cultura digital permissiva , ou, pior, conivente , com a violência. A facilidade com que esses conteúdos acumulam curtidas, salvamentos e compartilhamentos não é um mero indicativo de popularidade, mas um sinal perturbador de que ideias que deveriam ser combatidas encontram eco em públicos que, por vezes, não exercem o necessário senso crítico. Pergunta-se, com razão: seria aceitável que esses conteúdos, carregados de mensagens insidiosas, estejam sendo distribuídos e consumidos por indivíduos com intenções predatórias? A lógica perversa que leva a salvar ou compartilhar tais conteúdos pode muito bem estar sendo explorada para perpetuar ciclos de abuso e exploração.

O ambiente digital, que poderia ser um espaço de troca saudável e de disseminação de conhecimento, se transforma em um terreno fértil para a propagação de ideias tóxicas quando as barreiras éticas e o compromisso com a proteção dos direitos humanos são negligenciados. Essa realidade exige uma reflexão profunda: o entretenimento irresponsável, quando desprovido de empatia e de um olhar crítico, torna-se um agente de transformação negativa, contribuindo para a banalização de comportamentos que, na prática, destroem vidas.

É urgente que a sociedade se posicione contra essa normalização de discursos que alimentam a violência e a exploração. Cada compartilhamento, cada curtida, cada salvamento deve ser visto como uma responsabilidade coletiva ,um gesto que pode, inadvertidamente, endossar a perpetuação de um sistema que falha em proteger seus cidadãos mais vulneráveis. Se você, porventura, se encontra em um estado de espírito que permite a normalização dessas ideias, o apelo é claro: procure ajuda. A busca por suporte, seja por meio de serviços de saúde mental ou por redes de apoio social, é um passo indispensável para romper com essa cadeia de desumanização.

No cerne dessa discussão, não se trata apenas de apontar a hipocrisia ou o perigo de um personagem em específico, mas de denunciar um sintoma maior de uma sociedade que, em muitos de seus recantos, se mostra complacente diante de uma cultura que desvaloriza a proteção infantil. A responsabilização das plataformas digitais, dos produtores de conteúdo e, principalmente, do público, é um caminho indispensável para que possamos reverter essa epidemia silenciosa de violência.

Em última análise, a existência de discursos que, disfarçados de entretenimento, propagam ideias nocivas e desumanizantes, é um alerta para todos nós. Cabe a cada cidadão repensar seu papel como consumidor e, sobretudo, como agente de transformação social. Somente através de um compromisso ético coletivo , que una governos, instituições e a sociedade civil , poderemos construir um ambiente digital verdadeiramente seguro, onde a integridade e os direitos das crianças e adolescentes sejam, finalmente, respeitados e preservados.

Trago fatos, Marília Ms.

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