A Arrogância da Ignorância: Quando a Falta de Conhecimento se Transforma em Presunção



A frase “quando o conhecimento está morto, eles o chamam de academia” – que circula nos círculos de leitura e é atribuída a Thomas Bernhard, popularizada em debates culturais – nos convida a refletir sobre um fenômeno paradoxal que permeia tanto a vida cotidiana quanto as instituições: a arrogância da ignorância. Essa expressão, que ganhou relevo até mesmo em séries como Emily in Paris, ilustra a maneira como a falta de esforço para compreender e se integrar pode se transformar em um comportamento presunçoso e excludente.

Na série, a protagonista decide morar em Paris sem dominar o idioma local. Em determinado momento, um parisiense a acusa de arrogância, argumentando que é inconcebível chegar à capital francesa sem o mínimo de esforço para absorver a cultura e aprender a língua. Para ele, essa postura não é apenas um descuido, mas uma imposição – uma tentativa de fazer com que o mundo se molde à sua realidade, em vez de buscar entender e respeitar a cultura que o acolhe. Esse diálogo encapsula o que podemos definir como a “arrogância da ignorância”: a presunção de que se pode impor a própria visão de mundo sem o compromisso de se engajar com as diferenças.

Arrogância, no sentido literal, remete à ideia de apropriar-se de privilégios ou poderes sem reconhecer que esses mesmos privilégios podem não ser universais. Para muitos, morar no exterior sem se esforçar para compreender a cultura local é, de fato, um ato de arrogância – uma forma de dizer: “eu sou tão importante que exijo que o lugar se ajuste às minhas conveniências”. Essa atitude, contudo, é frequentemente disfarçada de ignorância. Afinal, se a pessoa não se preocupa em aprender e se adaptar, ela pode sequer ter consciência de que está, na verdade, impondo seus próprios valores num ambiente que lhe é alheio.

A “arrogância da ignorância” não se restringe apenas ao campo cultural ou linguístico. Pensemos, por exemplo, no jovem que negligencia seus deveres de autossustento e espera que a sociedade suporte seus fracassos sem que ele faça qualquer esforço para se reerguer. Esse mesmo comportamento se manifesta em diversas esferas da vida, desde as relações interpessoais até o ambiente profissional e até mesmo no campo espiritual. Se a razão revela a ordem da realidade – uma ordem que muitos acreditam ter sido instituída por uma força maior – afastar-se dela não é apenas um ato de descuido, mas um desserviço tanto para si quanto para aqueles que convivem conosco.

Vivemos numa era em que o neoliberalismo capitalista valoriza a aparência do sucesso e a promessa de ascensão social, muitas vezes à custa da autocrítica. Empresas, instituições e até mesmo indivíduos raramente admitem suas falhas, e essa ausência de autocrítica pode ser vista como a maior forma de arrogância. No campo das grandes corporações, por exemplo, seria impensável uma empresa que vende produtos prejudiciais admitir que seus produtos podem causar danos – pois fazê-lo implicaria perder uma fatia de seu lucro. Da mesma forma, a ignorância que se disfarça de arrogância está presente quando o indivíduo se recusa a reconhecer a importância de se atualizar, de se criticar e de aprender com os próprios erros.

Curiosamente, o mesmo debate permeia o ambiente acadêmico. A ideia de que a universidade é um espaço de constante inovação e renovação é, muitas vezes, desmentida pela própria prática institucional, que se mostra conservadora e resistente a mudanças. Como disse o sociólogo Pedro Demo, a universidade pode ser comparada a um sarcófago – brilhante por fora, mas com um “cadáver” de ideias estagnadas em seu interior. Essa contradição é um exemplo clássico da arrogância da ignorância: enquanto se celebra o conhecimento, a instituição muitas vezes se fecha para as críticas que poderiam, na verdade, impulsioná-la para o novo.

Para transcender essa dinâmica, é necessário um compromisso sincero com a autocrítica. Reconhecer que a ignorância pode se disfarçar de arrogância é o primeiro passo para a transformação pessoal e social. Seja no âmbito cultural – como no caso da protagonista de Emily in Paris – ou no campo profissional e acadêmico, a verdadeira mudança exige que nos abramos para o aprendizado contínuo e para a valorização da diversidade.

Isso significa, por exemplo, que um estrangeiro que decide viver em um novo país deve, de fato, se empenhar em aprender a língua e a cultura local, não por obrigação externa, mas como um gesto de respeito e desejo genuíno de integração. Da mesma forma, cada jovem que deseja ser autossuficiente e responsável precisa reconhecer que pedir benefícios sem oferecer esforço é uma forma de arrogância que prejudica não só a si próprio, mas também a coletividade.

A arrogância da ignorância é, em última análise, uma defesa do ego que se recusa a admitir suas limitações. É uma postura que nega a possibilidade de crescimento e evolução, transformando a falta de conhecimento em um escudo para a presunção. Em um mundo onde a autocrítica é rara – desde as grandes empresas que se esquivam de responsabilidades até as instituições que se recusam a se reinventar – cultivar a capacidade de questionar a si mesmo se torna um ato revolucionário.

Portanto, a mensagem que devemos extrair é clara: a verdadeira transformação, seja pessoal ou social, começa com a humildade de reconhecer que nunca se sabe tudo e que a aprendizagem constante é o caminho para a evolução. A universidade, mesmo em seu conservadorismo, e até mesmo os encontros culturais que desconstroem os estereótipos, nos ensinam que o primeiro passo para superar a arrogância da ignorância é justamente se permitir ser vulnerável ao novo, ao diferente, e – sobretudo – à própria crítica.

Trago fatos, Marília Ms.

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