Moda como Linguagem e Estratégia de Poder

 


A relação entre moda e política sempre foi um terreno fértil para análises que ultrapassam o universo das passarelas e adentram os domínios da comunicação simbólica, da identidade cultural e das estratégias de poder. O texto em análise utiliza o caso de Melania Trump para demonstrar como o vestuário, longe de ser apenas uma questão de estética, assume um papel estratégico na construção e na manutenção de discursos políticos, especialmente em eventos de grande visibilidade como a posse presidencial.

Desde os primórdios, a moda tem sido entendida como uma forma de linguagem não verbal, capaz de transmitir mensagens implícitas e explícitas. Nesse sentido, a expressão “moda é linguagem” não é apenas uma metáfora, mas uma constatação de que cada escolha de roupa, cor, corte e acessório carrega consigo uma série de significados culturais, históricos e políticos. Ao escolher um traje que dialoga com determinados valores, o indivíduo  ou, no caso de figuras públicas – transmite uma mensagem que vai além da mera aparência.

No contexto da posse presidencial de 2025, o look de Melania Trump, composto por um conjunto de saia, blusa e casaco sob medida em tons sóbrios (azul-marinho, marfim e azul profundo) e complementado por um chapéu de aba larga, não pode ser interpretado como uma mera decisão estética. Essa escolha, comparada com o visual mais leve e aberto exibido durante o primeiro mandato, configura um aparente reposicionamento que dialoga diretamente com o discurso conservador e nacionalista defendido por Donald Trump. A substituição dos estilistas europeus por nomes da cena nova-iorquina, como Adam Lippes e Eric Javits, reforça um posicionamento que valoriza a produção local, alinhando o vestuário da primeira-dama à agenda política de fortalecimento da indústria nacional.

A transição do visual de Melania Trump de 2017 para 2025 revela uma mudança não só de estilo, mas de discurso. No primeiro mandato, o look era marcado por tons mais claros e uma estética que permitia uma expressão mais acessível e, por que não dizer, humanizada da imagem da primeira-dama. Em contrapartida, o traje adotado na posse de 2025, com sua silhueta quase militar, cores sombrias e o uso de um chapéu que parcialmente oculta o rosto, carrega um simbolismo que remete à austeridade, ao formalismo e à submissão. Essa mudança pode ser interpretada como um reflexo das tensões e das transformações no cenário político norte-americano, onde o retorno de Donald Trump ao poder é acompanhado por um discurso de “vingança” e um ressurgimento de valores conservadores.

Especialistas em moda e gênero interpretam o uso do chapéu , um item tradicionalmente associado ao guarda-roupa de primeiras-damas  como um elemento que não só retira a visibilidade do rosto de Melania, mas que simboliza uma retirada de protagonismo. Ao “esconder” parte de sua identidade visual, a primeira-dama reforça a narrativa de que seu papel é secundário, destinado a complementar a imagem do presidente, e não a construir uma identidade própria. Essa leitura, embora sujeita a interpretações diversas, sugere que a escolha estética reflete uma estratégia de posicionamento que visa enfatizar a subordinação da figura feminina dentro de um contexto de poder tradicionalmente masculino.

Contudo, ao se atribuir um caráter eminentemente político a cada detalhe do traje, é necessário adotar uma postura crítica que questione até que ponto essas escolhas são fruto de uma estratégia deliberada ou de uma confluência de fatores que incluem tendências de moda, orientações de assessoria e necessidades protocolares. A interpretação de que o visual de Melania Trump, com seu corte militar e cores escuras, seja um sinal inequívoco de submissão ou de uma agenda política conservadora pode, por vezes, cair em um determinismo estético que negligencia a complexidade inerente ao mundo da moda.

É importante considerar que o vestuário, por sua própria natureza, é multifacetado. A escolha por um design mais austero pode ter raízes em uma tentativa de alinhar-se à formalidade exigida pelo protocolo do evento ou até mesmo de refletir uma preferência pessoal, sem necessariamente constituir uma manifestação de ideologia. Assim, a crítica que associa automaticamente o look de Melania a uma mensagem política mais rígida deve ser equilibrada com a compreensão de que, em muitos casos, o vestuário é fruto de negociações entre diversos atores , a própria primeira-dama, estilistas, assessores de imagem e, claro, a lógica institucional que rege os eventos de Estado.

Além disso, a insistência em uma leitura que vincule a estética da primeira-dama a um discurso de submissão e conservadorismo pode inadvertidamente reforçar estereótipos de gênero. Ao sugerir que o fato de Melania optar por um visual “impecável” e recatado representa uma renúncia de sua autonomia, corre-se o risco de desconsiderar a complexidade das escolhas femininas em ambientes de alta exposição pública, onde a construção da imagem pessoal muitas vezes envolve uma série de estratégias que dialogam com as expectativas históricas e culturais impostas às mulheres.

Outro aspecto fundamental a ser considerado é o papel das mídias na amplificação dessas mensagens visuais. Em uma era de hiperconectividade, onde cada imagem é amplamente disseminada e analisada nas redes sociais, o look de Melania Trump torna-se um campo de batalha simbólico, suscetível a interpretações diversas e, muitas vezes, polarizadas. Enquanto alguns veem na mudança de estilo uma representação da firmeza e da formalidade necessárias para acompanhar um governo marcado por discursos fortes e por medidas polarizadoras, outros interpretam o visual como um sinal de retração e de acomodação aos padrões tradicionais de feminilidade.

Essa dicotomia revela a complexidade inerente à comunicação visual no cenário político contemporâneo. A moda, nesse contexto, torna-se um espelho que reflete as tensões e as contradições de uma sociedade dividida, onde cada escolha estética pode ser tanto uma afirmação de identidade quanto uma ferramenta de manipulação simbólica. Dessa forma, a análise do vestuário de Melania Trump deve ser entendida como parte de um diálogo mais amplo sobre a representação de gênero, poder e identidade na esfera pública.

Em suma, o caso de Melania Trump ilustra de maneira contundente como o vestuário pode funcionar como uma linguagem de poder, carregada de significados que vão além da superfície da moda. A escolha por um look austero e militarizado na posse presidencial de 2025 não pode ser encarada apenas como uma preferência estética, mas como um elemento que dialoga com as narrativas políticas, culturais e de gênero que permeiam o ambiente da Casa Branca.

Entretanto, é preciso cautela ao interpretar cada detalhe como uma manifestação consciente de uma agenda ideológica. A moda, assim como a política, é um campo repleto de ambiguidades e contradições, onde múltiplas leituras podem coexistir. Se, por um lado, a análise aponta para uma possível estratégia de subordinação e de reforço de estereótipos conservadores, por outro, é fundamental reconhecer que o vestuário é resultado de uma série de fatores interligados, que vão desde as orientações de assessoria até as exigências do protocolo institucional.

Por fim, a reflexão crítica sobre o vestuário de Melania Trump nos leva a uma compreensão mais ampla da intersecção entre moda e política. Em um mundo onde cada detalhe visual é amplificado e interpretado sob múltiplas lentes, é imprescindível adotar uma postura que, ao mesmo tempo que valoriza a análise simbólica das escolhas estéticas, reconhece a complexidade e a multiplicidade de significados que elas podem carregar. Dessa forma, podemos avançar na construção de uma crítica mais equilibrada e consciente, que não reduza a moda a um mero veículo de ideologia, mas a encare como uma linguagem dinâmica e multifacetada, capaz de revelar as profundas transformações de nossa sociedade.

Trago fatos , Marília Ms.

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